Domingo, 2 de Dezembro de 2012

Não estou pensando em nada, e que bom!

Pensar

 

Não estou pensando em nada 
E essa coisa central, que é coisa nenhuma, 
É-me agradável como o ar da noite, 
Fresco em contraste com o verão quente do dia, 

Não estou pensando em nada, e que bom! 

Pensar em nada 
É ter a alma própria e inteira. 
Pensar em nada 
É viver intimamente 
O fluxo e o refluxo da vida... 
Não estou pensando em nada. 
E como se me tivesse encostado mal. 
Uma dor nas costas, ou num lado das costas, 
Há um amargo de boca na minha alma: 
É que, no fim de contas, 
Não estou pensando em nada, 
Mas realmente em nada, 
Em nada... 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


Setúbal

Outubro de 2012

Jorge Soares


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Quarta-feira, 2 de Maio de 2012

Não estou pensando em nada, e que bom!

Pensar

 

Não estou pensando em nada 
E essa coisa central, que é coisa nenhuma, 
É-me agradável como o ar da noite, 
Fresco em contraste com o verão quente do dia, 

Não estou pensando em nada, e que bom! 

Pensar em nada 
É ter a alma própria e inteira. 
Pensar em nada 
É viver intimamente 
O fluxo e o refluxo da vida... 
Não estou pensando em nada. 
E como se me tivesse encostado mal. 
Uma dor nas costas, ou num lado das costas, 
Há um amargo de boca na minha alma: 
É que, no fim de contas, 
Não estou pensando em nada, 
Mas realmente em nada, 
Em nada... 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

Évora, Março de 2012

Jorge Soares


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Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

Não: Devagar

Não: Devagar

 

Não: Devagar

 

Não: devagar. 
Devagar, porque não sei 
Onde quero ir. 
Há entre mim e os meus passos 
Uma divergência instintiva. 
Há entre quem sou e estou 
Uma diferença de verbo 
Que corresponde à realidade. 

Devagar... 
Sim, devagar... 
Quero pensar no que quer dizer 
Este devagar... 
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais. 
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo. 
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima... 

Talvez isso tudo... 
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar... 
O que é que tem que ser devagar? 
Se calhar é o universo... 
A verdade manda Deus que se diga. 
Mas ouviu alguém isso a Deus? 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

Jardim da Algodeia

Setúbal, Novembro de 2011

Jorge Soares


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Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

(n)o fim

Barco na doca dos pescadores

 

No Fim

 

No fim de tudo dormir. 
No fim de quê? 
No fim do que tudo parece ser..., 
Este pequeno universo provinciano entre os astros, 
Esta aldeola do espaço, 
E não só do espaço visível, mas até do espaço total. 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

Um velho barco de pesca jaz pousado ao sabor das marés num canto da doca dos pescadores em Setúbal.

Novembro de 2011

Jorge Soares


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Quinta-feira, 17 de Novembro de 2011

Porque ontem foi o dia do mar .....

Praia do CarvalhalAh, as praias 

Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe, 
E depois as praias próximas, os cais vistos de perto.
O mistério de cada ida e de cada chegada,
A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade
Deste impossível universo
A cada hora marítima mais na própria pele sentido!
O soluço absurdo que as nossas almas derramaram
Sobre as extensões de mares diferentes com ilhas ao longe,
Sobre as ilhas longínquas das costas deixadas passar,
Sobre o crescer nítido dos portos, com as suas casas e a sua gente,
Para o navio que se aproxima.


Álvaro de Campos, Ode Marítima

 

.... e eu só descobri agora.

 

Praia do Carvalhal, Grândola, Setúbal

Outubro de 2011

Jorge Soares

 


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Sábado, 10 de Setembro de 2011

Símbolos

Londres, Covent Garden

 

Simbolos

 

Símbolos? Estou farto de símbolos... 
Mas dizem-me que tudo é símbolo, 
Todos me dizem nada. 
Quais símbolos? Sonhos. — 
Que o sol seja um símbolo, está bem... 
Que a lua seja um símbolo, está bem... 
Que a terra seja um símbolo, está bem... 
Mas quem repara no sol senão quando a chuva cessa, 
E ele rompe as nuvens e aponta para trás das costas, 
Para o azul do céu? 
Mas quem repara na lua senão para achar 
Bela a luz que ela espalha, e não bem ela? 
Mas quem repara na terra, que é o que pisa? 
Chama terra aos campos, às árvores, aos montes, 
Por uma diminuição instintiva, 
Porque o mar também é terra... 
Bem, vá, que tudo isso seja símbolo... 
Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra, 
Mas neste poente precoce e azulando-se 
O sol entre farrapos finos de nuvens, 
Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado, 
E o que fica da luz do dia 
Doura a cabeça da costureira que pára vagamente à esquina 
Onde se demorava outrora com o namorado que a deixou? 
Símbolos? Não quero símbolos... 
Queria — pobre figura de miséria e desamparo! — 
Que o namorado voltasse para a costureira. 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

Covent Garden, Londres

Agosto de 2011

Jorge Soares


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Terça-feira, 1 de Março de 2011

Ai, Margarida, Se eu te desse a minha vida

Ai Margarida, Fernando Pessoa

 

Ai, Margarida,

 

Ai, Margarida,

Se eu te desse a minha vida,

Que farias tu com ela?

— Tirava os brincos do prego,

Casava c'um homem cego

E ia morar para a Estrela.

 

Mas, Margarida,

Se eu te desse a minha vida,

Que diria tua mãe?

— (Ela conhece-me a fundo.)

Que há muito parvo no mundo,

E que eras parvo também.

 

E, Margarida,

Se eu te desse a minha vida

No sentido de morrer?

— Eu iria ao teu enterro,

Mas achava que era um erro

Querer amar sem viver.

 

Mas, Margarida,

Se este dar-te a minha vida

Não fosse senão poesia?

— Então, filho, nada feito.

Fica tudo sem efeito.

Nesta casa não se fia.

 

Comunicado pelo Engenheiro Naval

       Sr. Álvaro de Campos em estado

                de inconsciência

                         alcoólica.

 

Jorge Soares


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Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,

Casa na Vila do Gerês

 

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos, 
Que felicidade há sempre! 

Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi. 
São felizes, porque não sou eu. 

As crianças, que brincam às sacadas altas, 
Vivem entre vasos de flores, 
Sem dúvida, eternamente. 

As vozes, que sobem do interior do doméstico, 
Cantam sempre, sem dúvida. 
Sim, devem cantar. 

Quando há festa cá fora, há festa lá dentro. 
Assim tem que ser onde tudo se ajusta — 
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza. 

Que grande felicidade não ser eu! 

Mas os outros não sentirão assim também? 
Quais outros? Não há outros. 
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada, 
Ou, quando se abre, 
É para as crianças brincarem na varanda de grades, 
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram. 
Os outros nunca sentem. 

Quem sente somos nós, 
Sim, todos nós, 
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada. 

Nada! Não sei... 
Um nada que dói... 

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

 

Tenho uma amiga que diz que com chuva as cores ficam mais vivas, a julgar por esta fotografia que mostra um pedacinho do Outono no nosso país, ela tem razão.

 

Outono na Vila do Gerês

Novembro de 2010


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Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011

Como um vaso vazio

Flor amarela

 

A minha alma partiu-se como um vaso vazio. 
Caiu pela escada excessivamente abaixo. 
Caiu das mãos da criada descuidada. 
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso. 

Asneira? Impossível? Sei lá! 
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu. 
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir. 

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. 
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada. 
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim. 

Não se zanguem com ela. 
São tolerantes com ela. 
O que era eu um vaso vazio? 

Olham os cacos absurdamente conscientes, 
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles. 

Olham e sorriem. 
Sorriem tolerantes à criada involuntária. 

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas. 
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros. 
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida? 
Um caco. 
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

 

Álvaro de Campos, in "Poemas"

 

Setúbal, Maio de 2010

Jorge Soares


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Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

Acaso

Trevo de 3 folhas

 

No acaso da rua o acaso da rapariga loira. 
Mas não, não é aquela. 

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro. 
Perco-me subitamente da visão imediata, 
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua, 
E a outra rapariga passa. 

Que grande vantagem o recordar intransigentemente! 
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga, 
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta. 

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso! 
Ao menos escrevem-se versos. 
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar,
Se calhar, ou até sem calhar, 
Maravilha das celebridades! 

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos... 
Mas isto era a respeito de uma rapariga, 
De uma rapariga loira, 
Mas qual delas? 
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade, 
Numa outra espécie de rua; 
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade 
Numa outra espécie de rua; 
Por que todas as recordações são a mesma recordação, 
Tudo que foi é a mesma morte, 
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã? 

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional. 
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas? 
Pode ser... A rapariga loira? 
É a mesma afinal... 
Tudo é o mesmo afinal ... 

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal. 

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

 

Trevo de 3 folhas.... ou será uma folha com 3 partes?
Novembro de 2010
Jorge Soares

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Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

Fernando Pessoa - Margarida

Margarida

 

Ai, Margarida,

Se eu te desse a minha vida,

Que farias tu com ela?

– Casava com um homem cego

E ia morar para a Estrela.


Mas, Margarida,

Se eu te desse a minha vida,

Que diria a tua mãe?

– (Ela conhece-me a fundo.)

Que há muito parvo no mundo,

E que eras parvo também.


E, Margarida,

Se eu te desse a minha vida

No sentido de morrer?

– Eu iria ao teu enterro,

Mas achava que era um erro

Querer amar sem viver.


Mas, Margarida,

Se este dar-te a minha vida

Não fosse senão poesia?

– Então, filho, nada feito.

Fica tudo sem efeito.

Nesta casa não se fia.

 

Álvaro de campos

 

Fernando Pessoa morreu a 30 de Novembro de 1936, tal dia como hoje ..., alguém dizia que não só foi o melhor poeta Português, como foi os cinco melhores poetas portugueses de sempre...

 

Jorge Soares


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Quinta-feira, 4 de Novembro de 2010

O dia deu em Chuvoso

Recanto do Gerês, Mata de Albergaria

 

 

O Dia Deu em Chuvoso

 

O dia deu em chuvoso. 
A manhã, contudo, esteve bastante azul. 
O dia deu em chuvoso. 
Desde manhã eu estava um pouco triste. 

Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma? 
Não sei: já ao acordar estava triste. 
O dia deu em chuvoso. 

Bem sei, a penumbra da chuva é elegante. 
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante. 
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. 
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? 
Dêem-me o céu azul e o sol visível. 
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim. 

Hoje quero só sossego. 
Até amaria o lar, desde que o não tivesse. 
Chego a ter sono de vontade de ter sossego. 
Não exageremos! 
Tenho efetivamente sono, sem explicação. 
O dia deu em chuvoso. 

Carinhos? Afetos? São memórias... 
É preciso ser-se criança para os ter... 
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro! 
O dia deu em chuvoso. 

Boca bonita da filha do caseiro, 
Polpa de fruta de um coração por comer... 
Quando foi isso? Não sei... 
No azul da manhã... 

O dia deu em chuvoso. 

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

 


 

Mata de Albergaria, Parque nacional do Gerês, Gerês, Amares, Braga

Novembro de 2010

Jorge Soares


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Segunda-feira, 14 de Junho de 2010

O Cansaço

Desespero

 

O Cansaço

 

O que há em mim é sobretudo cansaço — 
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada: 
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, 
Cansaço. 

A subtileza das sensações inúteis, 
As paixões violentas por coisa nenhuma, 
Os amores intensos por o suposto em alguém, 
Essas coisas todas — 
Essas e o que falta nelas eternamente —; 
Tudo isso faz um cansaço, 
Este cansaço, 
Cansaço.

 

Álvaro de Campos

 

Olhando para o que resultou da faina de um dia... o mar nem sempre é pródigo, há dias assim.

Algures na ilha de Santiago, Cabo Verde

Fevereiro de 2010

Jorge Soares


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Quinta-feira, 29 de Abril de 2010

O florir do encontro casual

Borboleta na folha de palma

 

O Florir

 

O florir do encontro casual

Dos que hão sempre de ficar estranhos...

 

O único olhar sem interesse recebido no acaso

Da estrangeira rápida ...

 

O olhar de interesse da criança trazida pela mão

Da mãe distraída...

 

As palavras de episódio trocadas

Com o viajante episódico Na episódica viagem ...

 

Grandes mágoas de todas as coisas serem bocados...

Caminho sem fim...

 

 

Álvaro de Campos

 

Borboleta numa folha de palma

Setúbal, Abril de 2010

Jorge Soares


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Sexta-feira, 5 de Março de 2010

No dia triste o meu coração mais triste que o dia...

 Nuvens

 

Nuvens

 

 

No dia triste o meu coração mais triste que o dia... 

Obrigações morais e civis? 

Complexidade de deveres, de consequências? 

Não, nada... 

O dia triste, a pouca vontade para tudo... 

Nada... 

 

Outros viajam (também viajei), outros estão ao sol 

(Também estive ao sol, ou supus que estive), 

Todos têm razão, ou vida, ou ignorância simétrica, 

Vaidade, alegria e sociabilidade, 

E emigram para voltar, ou para não voltar, 

Em navios que os transportam simplesmente. 

Não sentem o que há de morte em toda a partida, 

De mistério em toda a chegada, 

De horrível em todo o novo... 

 

Não sentem: por isso são deputados e financeiros, 

Dançam e são empregados no comércio, 

Vão a todos os teatros e conhecem gente... 

Não sentem: para que haveriam de sentir? 

Gado vestido dos currais dos Deuses, 

Deixá-lo passar engrinaldado para o sacrifício 

Sob o sol, alacre, vivo, contente de sentir-se... 

Deixai-o passar, mas ai, vou com ele sem grinalda 

Para o mesmo destino! 

Vou com ele sem o sol que sinto, sem a vida que tenho, 

Vou com ele sem desconhecer... 

 

No dia triste o meu coração mais triste que o dia... 

No dia triste todos os dias... 

No dia tão triste... 

 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 

 

 

Reflexos das nuvens do fim da tarde na cobertura .....

 

Parque das Nações, Lisboa

Janeiro de 2010

Jorge Soares

 


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Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010

Realidade

Lisboa, São Bento

Realidade

 

Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos... 

Nada está mudado - ou, pelo menos, não dou por isto - 

Nesta localidade da cidade ...

Há vinte anos!... 

O que eu era então!  Ora, era outro... 

Há vinte anos, e as casas não sabem de nada...

 

Vinte anos inúteis (e sei lá se o foram! 

Sei eu o que é útil ou inútil?)... 

Vinte anos perdidos (mas o que seria ganhá-los?)

 

Tento reconstruir na minha imaginação 

Quem eu era e como era quando por aqui passava 

Há vinte anos... 

Não me lembro, não me posso lembrar.

 

O outro que aqui passava, então,  

Se existisse hoje, talvez se lembrasse... 

Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro 

De que esse eu-mesmo que há vinte anos passava por aqui!

 

Sim, o mistério do tempo. 

Sim, o não se saber nada,  

Sim, o termos todos nascido a bordo 

Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer...

 

Daquela janela do segundo andar, ainda idêntica a si mesma, 

Debruçava-se então uma rapariga mais velha que eu, mais 

lembradamente de azul.

 

Hoje, se calhar, está o quê? 

Podemos imaginar tudo do que nada sabemos. 

Estou parado físisca e moralmente: não quero imaginar nada...

 

Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro,  

Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado,  

Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente. 

Quando muito, nem penso... 

Tenho a impressão que as duas figuras se cruzaram na rua, nem então nem agora,  

Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento.

 

Olhamos indiferentemente um para o outro. 

E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol,  

E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada.

 

Talvez isso realmente se desse... 

Verdadeiramente se desse... 

Sim, carnalmente se desse...

 

Sim, talvez...

 
Alvaro De Campos
 
Lisboa, Março de 2009
Jorge Soares


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