Quarta-feira, 5 de Setembro de 2012

A borboleta é apenas borboleta

Borboleta Zebra

 

Passa uma Borboleta

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.

 

Alberto Caeiro 


Uma Borboleta zebra pousada sobre as silvas

Algures perto de Navia, Astúrias, Espanha

Jorge Soares


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Quarta-feira, 9 de Maio de 2012

Se soubesse ..

Flor de Macieira

 

Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo. 

 

Alberto Caeiro in Quando Vier a Primavera

 

Jorge Soares

Pontido, Fafe

 

Abril de 2012

Jorge Soares


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Domingo, 1 de Janeiro de 2012

O Guardador de rebanhos

O Guardador de rebanhos

 

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
«Se é que ele as criou, do que duvido» –
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


Alberto Caeiro 

 

Setúbal, Dezembro de 2011

Jorge Soares


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Terça-feira, 8 de Novembro de 2011

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

A natureza é assim

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é. 
Mas porque a amo, e amo-a por isso, 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem por que ama, nem o que é amar...

 

Alberto Caeiro

 

La Isla, Colunga, Astúrias

Agosto de 2011

Jorge Soares


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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Natureza, La Isla, Astúrias

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... 


Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, 
Mas porque a amo, e amo-a por isso, 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ... 


Amar é a eterna inocência, 
E a única inocência não pensar...

 

Alberto Caeiro in Guardador de rebanhos

 

Praia La Isla, Colunga, Astúrias, Espanha

Agosto de 2011

Jorge Soares


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Segunda-feira, 4 de Julho de 2011

Leve, leve, muito leve, ....

Efémero, dente de leão

 

Leve, leve, muito leve, 
Um vento muito leve passa, 
E vai-se, sempre muito leve. 
E eu não sei o que penso 
Nem procuro sabê-lo. 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos

Casal de São Simão, Castanheira de Pêra

Junho de 2011

Jorge Soares


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Sexta-feira, 1 de Julho de 2011

Passado e futuro

Passado e Futuro

 

Não basta abrir a janela
para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse
que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Alberto Caeiro

 

Num velho castanheiro podemos ver os restos do Outono bem dentro da Primavera.

 

Casal de São Simão, Castanheira de Pêra

Junho de 2011

Jorge Soares


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Terça-feira, 31 de Maio de 2011

Recados Gráficos: O amor é uma companhia

Há quem coloque pessoa de espectador do amor!

 

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo,
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.


Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro

 

Os grafittis estão pintados numa coluna de um edificio na avenida 22 de Dezembro em Setúbal, não sei se terão sido pintados na mesma altura e pela mesma pessoa ou se terá sido um aproveitamento da situação.... não tem graça nenhuma, mas fez-me graça ver Pessoa no papel de voyeur do beijo apaixonado.

 

Setúbal, Maio de 2011

Jorge Soares


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Segunda-feira, 28 de Março de 2011

No meu Prato que Mistura de Natureza!

Abelha na flor de dente de leão

 

No meu prato que mistura de Natureza! 
As minhas irmãs as plantas, 
As companheiras das fontes, as santas 
A quem ninguém reza... 
E cortam-as e vêm à nossa mesa 
E nos hotéis os hóspedes ruidosos, 
Que chegam com correias tendo mantas 
Pedem "Salada", descuidosos..., 
Sem pensar que exigem à Terra-Mãe 
A sua frescura e os seus filhos primeiros, 
As primeiras verdes palavras que ela tem, 
As primeiras cousas vivas e irisantes 
Que Noé viu 
Quando as águas desceram e o cimo dos montes 
Verde e alagado surgiu 
E no ar por onde a pomba apareceu 
O arco-íris se esbateu... 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XVII" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

Uma abelha atarefada numa flor de dente de leão

Setúbal, Fvereiro de 2011

Jorge Soares


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Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011

Passado

Voar

 

Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.

A recordação é uma traição à Natureza.
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.

Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

 

Alberto Caeiro

 

Gaivota sobre a praia

Algar Seco, Carvoeiro

Algarve

Março de 2009

Jorge Soares


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Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010

Se às Vezes Digo que as Flores Sorriem .....

Borboleta

 

Se às Vezes Digo que as Flores Sorriem

 

Se às vezes digo que as flores sorriem 
E se eu disser que os rios cantam, 
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores 
E cantos no correr dos rios... 
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos 
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios. 
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes 
À sua estupidez de sentidos... 
Não concordo comigo mas absolvo-me, 
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza, 
Porque há homens que não percebem a sua linguagem, 
Por ela não ser linguagem nenhuma. 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXI"
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

 

Por vezes temos que focar um sitio..e esperar que o milagre aconteça... eu foquei a flor..e o milagre aconteceu.

 

Parque de Campismo de Montargil

Junho de 2010

Jorge Soares


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Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010

Só a natureza é divina

Cogumelos no Gerês

 

Só a natureza é divina, e ela não é divina... 
Se falo dela como de um ente 
É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens 
Que dá personalidade às cousas, 
E impõe nome às cousas.

Mas as cousas não têm nome nem personalidade: 
Existem, e o céu é grande a terra larga, 
E o nosso coração do tamanho de um punho fechado...

Bendito seja eu por tudo quanto sei. 
Gozo tudo isso como quem sabe que há o sol.

 

Alberto Caeiro

 

Cogumelos na Mata da Albergaria,

Parque nacional da Peneda Gerês

Gerês, Amares

Novembro de 2010

Jorge Soares

 

1 de Nov de 2010, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO:400Exp.: 1/100 seg., Abertura: 5.6, Ext. focal: 60mm Flash: Sim


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Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010

No entardecer dos dias de Verão, às vezes, .....

No entardecer de um dia de Verão.. sobre a areia, Playa Montalvo

 

No entardecer dos dias de Verão, às vezes, 
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece 
Que passa, um momento, uma leve brisa... 
Mas as árvores permanecem imóveis 
Em todas as folhas das suas folhas 
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão, 
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria... 
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem! 
Fôssemos nós como devíamos ser 
E não haveria em nós necessidade de ilusão ... 
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida 
E nem repararmos para que há sentidos ... 
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo 
Porque a imperfeição é uma cousa, 
E haver gente que erra é original, 
E haver gente doente torna o Mundo engraçado. 
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos, 
E deve haver muita cousa 
Para termos muito que ver e ouvir ... 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

Fim de tarde de um daqueles dias de verão .....

 

Playa Montalvo, Portonovo, Galiza

Agosto de 2010

Jorge Soares


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Sexta-feira, 16 de Julho de 2010

As Bolas de Sabão

As bolas de Sabão

 

As Bolas de Sabão

 

As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.

 

Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

Alberto Caeiro

 

Jardim do Bonfim

Setúbal

Junho de 2010

Jorge Soares


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Quinta-feira, 1 de Julho de 2010

Bendito seja o mesmo sol de outras terras

Pôr do Sol na praiinha

 

Bendito seja o mesmo sol de outras terras 
Que faz meus irmãos todos os homens 
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham 
como eu, 
E, nesse puro momento 
Todo limpo e sensível 
Regressam lacrimosamente 
E com um suspiro que mal sentem 
Ao homem verdadeiro e primitivo 
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava. 
Porque isso é natural — mais natural 
Que adorar o ouro e Deus 
E a arte e a moral ... 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXVIII"

 

Pôr do sol na prainha, Praia, Cabo Verde

Fevereiro de 2010

Jorge Soares


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Quarta-feira, 9 de Junho de 2010

O que é perfeito não precisa de nada

simplicidade azul

 

 

Sim, talvez tenham razão. 
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more, 
Mas essa coisa oculta é a mesma 
Que a coisa sem ser oculta. 

Na planta, na árvore, na flor 
(Em tudo que vive sem fala 
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência), 
No bosque que não é árvores mas bosque, 
Total das árvores sem soma, 
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro 
Que lhes dá a vida; 
Que floresce com o florescer deles 
E é verde no seu verdor. 

No animal e no homem entra. 
Vive por fora por dentro 
É um já dentro por fora, 
Dizem os filósofos que isto é a alma 
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem 
Da maneira como existe. 

E penso que talvez haja entes 
Em que as duas coisas coincidam 
E tenham o mesmo tamanho. 

E que estes entes serão os deuses, 
Que existem porque assim é que completamente se existe, 
Que não morrem porque são iguais a si mesmos, 
Que podem mentir porque não têm divisão [?] 
Entre quem são e quem são, 
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam 
Porque o que é perfeito não precisa de nada.

 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

 

 

Flor silvestre do sopé da Arrábida

Setúbal

Maio de 2010


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Sexta-feira, 4 de Junho de 2010

O meu olhar

 

O meu olhar

 

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.  Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

 

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)                  
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

 

Alberto Caeiro in Guardador de rebanhos

 

Moinhos do rio Ul,

Parque molinológico

Ul, Oliveira de azemeis

Março de 2009

Jorge Soares


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Quarta-feira, 28 de Abril de 2010

Sim, talvez tenham razão

 

 

Sim, talvez tenham razão.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.

Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.

No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.

E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.

E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada.

 

Alberto Caeiro

 

Pequena papoila que cresceu entre as pedras da calçada portuguesa

Setúbal Abril de 2010

Jorge Soares


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Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

Para além da curva da estrada

Estrada para as sete cidades 

 

 

"Para além da curva da estrada 

Talvez haja um poço, e talvez um castelo, 

E talvez apenas a continuação da estrada. 

Não sei nem pergunto. 

Enquanto vou na estrada antes da curva 

Só olho para a estrada antes da curva, 

Porque não posso ver senão a estrada antes da curva. 

De nada me serviria estar olhando para outro lado 

E para aquilo que não vejo. 

Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos. 

Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer. 

Se há alguém para além da curva da estrada, 

Esses que se preocupem com o que ha para além da curva da estrada. 

Essa é que é a estrada para eles. 

Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos. 

Por ora só sabemos que lá não estamos. 

Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva 

Há a estrada sem curva nenhuma." 

 

Alberto Caeiro

 

Estrada para as Sete Cidades

São Miguel, Açores

Agosto de 2008

 

Jorge Soares

 


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Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

O unico sentido das coisas....

Gaivota

 

O único sentido íntimo das cousas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

 

Alberto Caeiro

O guardador de rebanhos

 

Setúbal, Novembro de 2009

Jorge Soares

 

Nov 8, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 100, Exposição: 1/500 seg., Abertura: 7.1 Extensão focal: 200mm


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Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

... os poetas dizem que as flores sentem ...

Colorida

 

Os poetas místicos são filósofos doentes, 

  E os filósofos são homens doidos.

  Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem 

  E dizem que as pedras têm alma 

  E que os rios têm êxtases ao luar.

 

  Mas as flores, se sentissem, não eram flores, 

  Eram gente; 

  E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras; 

  E se os rios tivessem êxtases ao luar, 

  Os rios seriam homens doentes.

 

Alberto Caeiro

 

Setúbal, Outubro de 2009

Jorge Soares

 

Oct 27, 2009, Câmara: SONY , Modelo: DSLR-A350, ISO: 320, Exposição: 1/320 seg., Abertura: 5.6, Extensão focal: 200mm


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Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

 Flores

 

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

 

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,

Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,

Pergunto a mim próprio devagar

Porque sequer atribuo eu

Beleza às coisas.

 

Uma flor acaso tem beleza?

Tem beleza acaso um fruto?

Não: têm cor e forma

E existência apenas.

A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe

Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.

Não significa nada.

Então porque digo eu das coisas: são belas?

 

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,

Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens

Perante as coisas,

Perante as coisas que simplesmente existem.

 

Que difícil ser próprio e não ser senão o visível!

 

                                        Alberto Caeiro

 

Troia, Setúbal

Junho de 2009

Jorge Soares

Jun 14, 2009, Câmara: SONY,DSLR-A350, ISO: 100, Exposição: 1/640 seg.,Abertura: 5.6,Extensão focal: 130mm, Flash utilizado: Não

 


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Sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

A criança que pensa em fadas

Pink

Imagem minha do Olhares

 

A CRIANÇA que pensa em fadas e acredita nas fadas  

Age como um deus doente, mas como um deus. 

Porque embora afirme que existe o que não existe 

Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,  

Sabe que existir existe e não se explica,  

Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,  

Sabe que ser é estar em algum ponto 

Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

 

Alberto Caeiro

 

Jardim da Algodeia, Setúbal, Julho de 2008

Jorge Soares

 

 

 


publicado por Jorge Soares às 08:15
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Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Passa uma borboleta

 Borboletas na areia da praia do Malhão

 

 

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.

 

Alberto Caeiro

 

 

Jun 13, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 100, Exposição: 1/1250 seg.Abertura: 5.6, Extensão focal: 200mm

 

Praia do Malhão, Vila Nova de Milfontes, Odemira

Junho de 2009

 
 


publicado por Jorge Soares às 08:05
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Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Falas de civilização

Falas de civilização, Fernando Pessoa 

 

Falas de civilização...

 

Falas de civilização, e de não dever ser,

Ou de não dever ser assim.

Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,

Com as coisas humanas postas desta maneira,

Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.

Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.

Escuto sem te ouvir.

Para que te quereria eu ouvir?

Ouvindo-te nada ficaria sabendo.

Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.

Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.

Ai de ti e de todos que levam a vida

A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

 

                                          Alberto Caeiro

 

Flores do Jardim do Qebedo

Setúbal, Maio de 2009

 

May 28, 2009, Câmara: SONY, DSLR-A350, ISO: 160, Exposição: 1/320 seg.,Abertura: 5.6, Extensão focal: 200mm


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Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Da minha Aldeia

Igreja de Ul e Parque Molinológico

 

DA MINHA ALDEIA vejo quando da terra se pode ver no Universo....

Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,

Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.

  

Alberto Caeiro, em "O Guardador de rebanhos"

 

Parque Moilinológico de Ul, Ul, Oliveira de Azemeis, Aveiro

 

Apr 4, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 100 Exposição: 1/125 seg. Abertura: 11.0 Extensão focal: 26mm


publicado por Jorge Soares às 11:49
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Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Vive

Vive

 

 

 

 

Vive, dizes, no presente, 

Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade; 
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente? 
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro. 
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem. 
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema. 
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas  
                como cousas. 
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar. 
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las; 
Vê-las até não poder pensar nelas, 
Vê-las sem tempo, nem espaço, 
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.  
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma. 

 

Alberto Caeiro

 


publicado por Jorge Soares às 00:45
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