Quinta-feira, 15 de Novembro de 2012

O gosto a sol e a sangue dos sentidos.

Vendedoras de Água de Coco

 

 

Caminharemos de Olhos Deslumbrados

 

Caminharemos de olhos deslumbrados 
E braços estendidos 
E nos lábios incertos levaremos 
O gosto a sol e a sangue dos sentidos. 

Onde estivermos, há-de estar o vento 
Cortado de perfumes e gemidos. 
Onde vivermos, há-de ser o templo 
Dos nossos jovens dentes devorando 
Os frutos proibidos. 

No ritual do verão descobriremos 
O segredo dos deuses interditos 
E marcados na testa exaltaremos 
Estátuas de heróis castrados e malditos. 

Ó deus do sangue! deus de misericórdia! 
Ó deus das virgens loucas 
Dos amantes com cio, 
Impõe-nos sobre o ventre as tuas mãos de rosas, 
Unge os nossos cabelos com o teu desvario! 

Desce-nos sobre o corpo como um falus irado, 
Fustiga-nos os membros como um látego doido, 
Numa chuva de fogo torna-nos sagrados, 
Imola-nos os sexos a um arcanjo loiro. 

Persegue-nos, estonteia-nos, degola-nos, castiga-nos, 
Arranca-nos os olhos, violenta-nos as bocas, 
Atapeta de flores a estrada que seguimos 
E carrega de aromas a brisa que nos toca. 

Nus e ensanguentados dançaremos a glória 
Dos nossos esponsais eternos com o estio 
E coroados de apupos teremos a vitória 
De nos rirmos do mundo num leito vazio. 


Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'

 

Vendedoras de cocos na praia do Tarrafal

Cabo Verde

Novembro de 2012

Jorge Soares


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Terça-feira, 6 de Novembro de 2012

Para um tempo que fica Doendo por dentro

Praia de Kebra Kanela

 

 Canção do Tempo

 

Para um tempo que fica
Doendo por dentro
E passa por fora
Para o tempo do vento
Que é o contratempo
Da nossa demora
Passam dias e noites
Os meses...os anos
O segundo e a hora
E ao tempo presente
É que a gente pergunta
E agora...e agora

 

Tempo
Para pensar cada momento deste tempo
Que cada dia é mais profundo e é mais tempo
Para emendar pois outro tempo menos lento


Tempo
Dos nossos filhos apredenderem com mais tempo
A rapidez que apanha sempre o pensamento
Para nascer, para viver, para existir
E nunca mais verem o tempo fugir

Ai...o tempo constante
Que a cada instante
Nos passa por fora
Este tempo candente
Que é como um cometa
Com laivos de aurora
É o tempo de hoje
É o tempo de ontem
É o tempo de outrora
Mas o tempo da gente
É o tempo presente
É agora...é agora

 

Tempo
Para agarrar cada momento deste tempo
E terminar em absoluto ao mesmo tempo
Em temporal como os ponteiros do minuto


Tempo
Para o relogio bater certo com a vida
Que um homem bom que um homem sao que um homem forte
Que nao chegava a conseguir fazer partida
E que desperta adiantado para a morte

 

Ary Dos Santos 

 

Uma criança brinca na areia na Praia de Kebra Kanela

Cidade da Praia, Cabo Verde

Novembro de 2012

Jorge Soares


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Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

Era uma vez um país

Papoila

 

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas

lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.
(…)

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração

(…)

 

Ary dos Santos

 

25 de Abril sempre


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Quarta-feira, 24 de Março de 2010

Auto-Retrato

 

 

Poeta é certo mas de cetineta 
fulgurante de mais para alguns olhos 
bom artesão na arte da proveta 
marciso de lombardas e repolhos. 

Cozido à portuguesa mais as carnes 
suculentas da auto-importância 
com toicinho e talento ambas partes 
do meu caldo entornado na infância. 

Nos olhos uma folha de hortelã 
que é verde como a esperança que amanhã 
amanheça de vez a desventura. 

Poeta de combate disparate 
palavrão de machão no escaparate 
porém morrendo aos poucos de ternura. 

Ary dos Santos, in 'Fotosgrafias'

 

Porque é mais ou menos assim que me sinto.

 

Gato no Miradouro de São Domingos

Setúbal, Março de 2009

Jorge Soares



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Sexta-feira, 19 de Março de 2010

Os Putos

 Os putos

 

 

Os putos

 

Uma bola de pano, num charco

Um sorriso traquina, um chuto

Na ladeira a correr, um arco

O céu no olhar, dum puto.

 

Uma fisga que atira a esperança

Um pardal de calções, astuto

E a força de ser criança

Contra a força dum chui, que é bruto.

 

Parecem bandos de pardais à solta

Os putos, os putos

São como índios, capitães da malta

Os putos, os putos

Mas quando a tarde cai

Vai-se a revolta

Sentam-se ao colo do pai

É a ternura que volta

E ouvem-no a falar do homem novo

São os putos deste povo

A aprenderem a ser homens.

 

As caricas brilhando na mão

A vontade que salta ao eixo

Um puto que diz que não

Se a porrada vier não deixo

 

Um berlinde abafado na escola

Um pião na algibeira sem cor

Um puto que pede esmola

Porque a fome lhe abafa a dor.

 

                     José Carlos Ary dos Santos

 

Cabo Verde, Fevereiro de 2010

Jorge Soares

 


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Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

A cidade é um chão de palavras pisadas

A cidade é um chão de palavras pisadas 

A cidade é um chão de palavras pisadas

 

A cidade é um chão de palavras pisadas

a palavra criança  a palavra segredo.

A cidade é um céu de palavras paradas

a palavra distância  e a palavra medo.

 

A cidade é um saco  um pulmão que respira

pela palavra água  pela palavra brisa

A cidade é um poro  um corpo que transpira

pela palavra sangue  pela palavra ira.

 

A cidade tem praças de palavras abertas

como estátuas mandadas apear.

A cidade tem ruas de palavras desertas

como jardins mandados arrancar.

 

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.

A palavra silêncio é uma rosa chá.

Não há céu de palavras que a cidade não cubra

não há rua de sons que a palavra não corra

à procura da sombra de uma luz que não há.

 

                  José Carlos Ary dos Santos

 

Setúbal, Câmara Municipal, Praça do Bocage

Julho de 2009

Jorge Soares


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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Poeta Castrado, Não!

Parque Urbano do Rio Ul

 

 

 Poeta Castrado, Não!

 

Serei tudo o que disserem

por inveja ou negação:

cabeçudo   dromedário

fogueira de exibição

teorema   corolário

poema de mão em mão

lãzudo   publicitário

malabarista   cabrão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado   não!

 

Os que entendem como eu

as linhas com que me escrevo

reconhecem o que é meu

em tudo quanto lhes devo:

ternura  como já disse

sempre que faço um poema;

saudade que   se partisse

me alagaria de pena;

e também uma alegria

uma coragem serena

em renegar a poesia

quando ela nos envenena.

 

Os que entendem como eu

a força que tem um verso

reconhecem o que é seu

quando lhes mostro o reverso:

 

Da fome já não se fala

--- é tão vulgar que nos cansa ---

mas que dizer de uma bala

num esqueleto de criança?

 

Do frio não reza a história

--- a morte é branda e letal ---

mas que dizer da memória

de uma bomba de napalm?

 

E o resto que pode ser

o poema dia a dia?

--- Um bisturi a crescer

nas coxas de uma judia;

um filho que vai nascer

parido por asfixia?!

--- Ah não me venham dizer

que é fonética a poesia!

 

Serei tudo o que disserem

por temor ou negação:

Demagogo   mau profeta

falso médico   ladrão

prostituta   proxeneta

espoleta   televisão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado   não!

 

   José Carlos Ary dos Santos

 

Parque Urbano do Ro Ul

 

São João Da Madeira, Aveiro

Dezembro de 2008

Jorge Soares


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