Sábado, 12 de Janeiro de 2013

Sortelha - A porta

Sortelha

 

Verdade 

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

 

Carlos Drummond de Andrade

 

Sortelha, Sabugal

Dezembro de 2012

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 19:44
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Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

Ausência

Rosa sem pétalas

 

Ausência

 

Por muito tempo achei que a ausência é falta. 
E lastimava, ignorante, a falta. 
Hoje não a lastimo. 
Não há falta na ausência. 
A ausência é um estar em mim. 
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus 
                                                                            [braços, 
que rio e danço e invento exclamações alegres, 
porque a ausência, essa ausência assimilada, 
ninguém a rouba mais de mim. 

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo' 

 

Alviães, Oliveira de Azemeis
Dezmbro de 2011
Jorge Soares

 


publicado por Jorge Soares às 00:35
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Quarta-feira, 13 de Julho de 2011

A porta da verdade estava aberta,

Portas fechadas

 

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

 

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.


E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

 

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

 

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

 

Carlos Drummond de Andrade

 

Setúbal, Maio de 2011

Jorge Soares


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Segunda-feira, 27 de Junho de 2011

.... esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade!

Todos diferentes todos iguais

 

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.” 

 

Carlos Drummond de Andrade

 

Eu gosto de Pessoas.

Setúbal, Maio de 2011

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 00:03
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Sexta-feira, 3 de Junho de 2011

O Amor Bate na Porta

Batentes em Setúbal

 

O Amor Bate na Porta

 

 

 

Cantiga do amor sem eira 
nem beira, 
vira o mundo de cabeça 
para baixo, 
suspende a saia das mulheres, 
tira os óculos dos homens, 
o amor, seja como for, 
é o amor. 

Meu bem, não chores, 
hoje tem filme de Carlito! 

O amor bate na porta 
o amor bate na aorta, 
fui abrir e me constipei. 
Cardíaco e melancólico, 
o amor ronca na horta 
entre pés de laranjeira 
entre uvas meio verdes 
e desejos já maduros. 

Entre uvas meio verdes, 
meu amor, não te atormentes. 
Certos ácidos adoçam 
a boca murcha dos velhos 
e quando os dentes não mordem 
e quando os braços não prendem 
o amor faz uma cócega 
o amor desenha uma curva 
propõe uma geometria. 

Amor é bicho instruído. 
Olha: o amor pulou o muro 
o amor subiu na árvore 
em tempo de se estrepar. 
Pronto, o amor se estrepou. 
Daqui estou vendo o sangue 
que escorre do corpo andrógino. 
Essa ferida, meu bem, 
às vezes não sara nunca 
às vezes sara amanhã. 

Daqui estou vendo o amor 
irritado, desapontado, 
mas também vejo outras coisas: 
vejo corpos, vejo almas 
vejo beijos que se beijam 
ouço mãos que se conversam 
e que viajam sem mapa. 
Vejo muitas outras coisas 
que não ouso compreender... 

Carlos Drummond de Andrade, in 'Brejo das Almas'

 

Batentes numa velha porta na baixa de Setúbal

Maio de 2011

Jorge Soares

 

Data 9.05.2011 , Câmara:SONY, DSLR-A350,ISO:400, Exposição:1/80, Abertura:5.6, Dist.55mm, flash: Não


publicado por Jorge Soares às 00:03
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Domingo, 17 de Outubro de 2010

Viver .. era isso, mais nada?

Viver.. por trás da porta

 

Viver

 

Mas era apenas isso, 
era isso, mais nada? 
Era só a batida 
numa porta fechada? 

E ninguém respondendo, 
nenhum gesto de abrir: 
era, sem fechadura, 
uma chave perdida? 

Isso, ou menos que isso 
uma noção de porta, 
o projecto de abri-la 
sem haver outro lado? 

O projecto de escuta 
à procura de som? 
O responder que oferta 
o dom de uma recusa? 

Como viver o mundo 
em termos de esperança? 
E que palavra é essa 
que a vida não alcança?

 

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'

 

A vida são muitas coisas, muitas escolhas, muitos caminhos cruzados, muitas oportunidades perdidas, muitas outras agarradas com ambas as mãos... mas no fim, tudo se resume a Somos o que vivemos.

 

Setúbal, Outubro de 2010

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 23:59
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Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

As coisas que amamos

As coisas que amamos

 

"As coisas que amamos
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra maneira se tornam absoluta
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmorecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.*
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar"

 

Carlos Drummond de Andrade

 

Fim de tarde no Jardim da Algodeia

Setúbal, Março de 2010

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 11:51
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Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

A porta da verdade ...

A Porta da verdade

 

 

VERDADE

                                                  

A porta da verdade estava aberta,

mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez.

 

Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava

só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade

voltava igualmente com meio perfil.

E os meios perfis não coincidiam.

 

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso

onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades

diferentes uma da outra.

 

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela.

E carecia optar. Cada um optou conforme

seu capricho, sua ilusão, sua miopia

 

Carlos Drummond de Andrade 

 

Setúbal, Dezembro de 2009

Jorge Soares

 

 

 

13 de Dez de 2009, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 100, Exposição: 1/320 seg., Abertura: 10.0 Extensão focal: 20mm


publicado por Jorge Soares às 00:16
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