Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2013

Mocidade

Mocidade

Mocidade

A mocidade esplêndida, vibrante,
Ardente, extraordinária, audaciosa.
Que vê num cardo a folha duma rosa,
Na gota de água o brilho dum diamante;
Essa que fez de mim Judeu Errante
Do espírito, a torrente caudalosa,
Dos vendavais irmã tempestuosa,
- Trago-a em mim vermelha, triunfante!
No meu sangue rubis correm dispersos:
- Chamas subindo ao alto nos meus versos,
Papoilas nos meus lábios a florir!
Ama-me doida, estonteadoramente,
O meu Amor! que o coração da gente
É tão pequeno... e a vida, água a fugir...
                                       Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

Nas margens do Rio Caima
Palmaz,Oliveira de Azemeis
Dezembro de 2012
Jorge Soares

publicado por Jorge Soares às 09:11
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Sexta-feira, 20 de Abril de 2012

Puro

Branco

 

"Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse a chorar isto que sinto!"

Florbela Espanca

 

 

Uma tulipa branca algures no Minho

Abril de 2012

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 08:36
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Sexta-feira, 30 de Março de 2012

Évora! Ruas ermas sob os céus

Évora

 

Évora

 

Évora! Ruas ermas sob os céus

Cor de violetas roxas ... Ruas frades

Pedindo em triste penitência a Deus

Que nos perdoe as míseras vaidades!

 

Tenho corrido em vão tantas cidades!

E só aqui recordo os beijos teus,

E só aqui eu sinto que são meus

Os sonhos que sonhei noutras idades!

 

Évora! ... O teu olhar ... o teu perfil ...

Tua boca sinuosa, um mês de Abril,

Que o coração no peito me almoroça!

 

... Em cada viela o vulto dum fantasma ...

E a minh'alma soturna escuta e pasma ...

E sente-se passar menina e moça ... 

 

Florbela Espanca

 

Évora, Março de 2012

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 22:41
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Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Sede

A Pomba

 

O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!

 

Florbela Espanca

 

Jardim do Bonfim

Setúbal, Janeiro de 2012

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 15:00
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Sexta-feira, 8 de Abril de 2011

O Silêncio abre as mãos..

Crepúsculo

 

Crepúsculo

 

Teus olhos, borboletas de oiro, ardentes 
Batendo as asas leves, irisadas, 
Poisam nos meus, suaves e cansadas 
Como em dois lírios roxos e dolentes... 

E os lírios fecham... Meu Amor, não sentes? 
Minha boca tem rosas desmaiadas, 
E as minhas pobres mãos são maceradas 
Como vagas saudades de doentes... 

O Silêncio abre as mãos... entorna rosas... 
Andam no ar carícias vaporosas 
Como pálidas sedas, arrastando... 

E a tua boca rubra ao pé da minha 
É na suavidade da tardinha 
Um coração ardente palpitando... 

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

 

 

Alviães, Oliveira de Azemeis
Março de 2011
Jorge Soares

publicado por Jorge Soares às 20:52
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Terça-feira, 1 de Março de 2011

Acordo do meu sonho...E não sou nada!...

Flamingo

 

VAIDADE

Sonho que sou a Poetisa eleita, 
Aquela que diz tudo e tudo sabe, 
Que tem a inspiração pura e perfeita, 
Que reúne num verso a imensidade! 

Sonho que um verso meu tem claridade 
Para encher todo o mundo! E que deleita 
Mesmo aqueles que morrem de saudade! 
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita! 

Sonho que sou Alguém cá neste mundo... 
Aquela de saber vasto e profundo, 
Aos pés de quem a Terra anda curvada! 

E quando mais no céu eu vou sonhando, 
E quando mais no alto ando voando, 
Acordo do meu sonho...E não sou nada!...

 

Florbela Espanca

 

Um Flamingo do Zoo de Lisboa

Outubro de 2010

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 00:03
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Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

Passam lendas e sonhos e milagres

Catarina de Bragança e a ponte Vasco da Gama

 

O Teu Olhar

 

Passam no teu olhar nobres cortejos, 
Frotas, pendões ao vento sobranceiros, 
Lindos versos de antigos romanceiros, 
Céus do Oriente, em brasa, como beijos, 

Mares onde não cabem teus desejos; 
Passam no teu olhar mundos inteiros, 
Todo um povo de heróis e marinheiros, 
Lanças nuas em rútilos lampejos; 

Passam lendas e sonhos e milagres! 
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres, 
Em centelhas de crença e de certeza! 

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim, 
Amor, julgo trazer dentro de mim 
Um pedaço da terra portuguesa! 

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

 

 

Catarina de Bragança com a Ponte Vasco da Gama ao fundo..... não me perguntem porque escolhi este poema.... .escolhi, pronto!

 

Parque das nações, Lisboa

Novembro de 2010

 

21 de Nov de 2010, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 200, Exp.: 1/640 seg. Abert.: 8.0. Ext.: 18mm Flash: Não


publicado por Jorge Soares às 13:32
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Quarta-feira, 14 de Julho de 2010

Pequenina

Eu e o meu outro eu

 

És pequenina e ris ... A boca breve 
É um pequeno idílio cor-de-rosa ... 
Haste de lírio frágil e mimosa! 
Cofre de beijos feito sonho e neve! 

Doce quimera que a nossa alma deve 
Ao Céu que assim te faz tão graciosa! 
Que nesta vida amarga e tormentosa 
Te fez nascer como um perfume leve! 

O ver o teu olhar faz bem à gente ... 
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores 
Quando o teu nome diz, suavemente ..

 

Florbela Espanca

 

Jorge Soares

 



publicado por Jorge Soares às 10:49
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Sábado, 1 de Agosto de 2009

Roseira Brava

Rosa brava 

 

Há nos teus olhos um tal fulgor

E no teu riso tanta claridade,

Que o lembrar-me de ti é ter saudade

Duma roseira brava toda em flor.

 

Tuas mãos foram feitas para a dor,

Para os gestos de doçura e piedade;

E os teus beijos de sonho e de ansiedade

São como a alma a arder do próprio Amor!

 

Nasci envolta em trajes de mendiga;

E, ao dares-me o teu amor de maravilha,

Deste-me o manto de oiro de rainha!

 

Tua irmã…teu amor…e tua amiga…

E também, toda em flor, a tua filha,

Minha roseira brava que é só minha!…

 

Florbela Espanca - Reliquiae

 

Setúbal, Abril de 2009

Jorge Soares

 

Apr 19, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350,ISO: 100,Exposição: 1/500 seg.,Abertura: 6.3,Extensão focal: 180mm

 


publicado por Jorge Soares às 16:59
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Domingo, 21 de Junho de 2009

Tarde no mar

 TRade no mar, Meco Sesimbra

 

Tarde no mar


A tarde é de oiro rútilo: esbraseia.
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,

Pousa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue o seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia,
Desenha mãos sangrentas de assassino!

Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...

E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...

 Florbela Espanca

Praia do Meco, Sesimbra, Setúbal
Novembro de 2008
Nov 9, 2008, Câmara: SONY ,DSLR-A350, ISO: 100, Exposição: 1/160 seg.,Abertura: 13.0,Extensão focal: 55mm 

 


publicado por Jorge Soares às 22:30
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Sábado, 9 de Maio de 2009

Charneca em flor

Charneca em flor. Florbela Espanca


Charneca em Flor

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu bruel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!
 

Florbela Espanca 


publicado por Jorge Soares às 22:23
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