Segunda-feira, 22 de Outubro de 2012

Talvez sejas a breve recordação de um sonho

Não o Sonho

 

Não o Sonho

 

Talvez sejas a breve 
recordação de um sonho 
de que alguém (talvez tu) acordou 
(não o sonho, mas a recordação dele), 
um sonho parado de que restam 
apenas imagens desfeitas, pressentimentos. 
Também eu não me lembro, 
também eu estou preso nos meus sentidos 
sem poder sair. Se pudesses ouvir, 
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos, 
animais acossados e perdidos 
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim, 
desamarraram-me de mim e agora 
só me lembro pelo lado de fora. 

Manuel António Pina, in "Atropelamento e Fuga" 


Fim de tarde em Setúbal
Jorge Soares

publicado por Jorge Soares às 00:22
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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

O Pássaro que canta

Dalaiama

 

Sou o pássaro que canta

dentro da tua cabeça

que canta na tua garganta

canta onde lhe apeteça

 

Sou o pássaro que voa

dentro do teu coração

e do de qualquer pessoa

mesmo as que julgas que não

 

Sou o pássaro da imaginação

que voa até na prisão

e canta por tudo e por nada

mesmo com a boca fechada

 

E esta é a canção sem razão

que não serva para mais nada

senão para ser cantada

quando os amigos se vão

 

E ficas de novo sozinho

na solidão que começa

apenas com o passarinho

dentro da tua cabeça.


Manuel António Pina

 

Lisboa, Janeiro de 2012

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 00:03
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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

As palavras fazem sentido

As palavras fazem sentido...a vida pro vezes faz sentido

 

«As palavras fazem
sentido (o tempo que levei até descobrir isto!),
um sentido justo,
feito de mais palavras.
(A impossibilidade de falar
e de ficar calado
não pode parar de falar,
escrevi eu ou outro).


Volto a casa.
ao princípio,
provavelmente um pouco mais velho.
As mesmas árvores,
mais velhas
a lembrança delas
passando sem tempo nos meus olhos,
como uma ideia feita ou um sentimento.


Entre o que regressa
e o que partiu um dia
ficaram palavras;


talvez (quem sabe?)
algum sentido.


Agora, como um intruso, subo as
escadas e abro a porta; e entro, vivo,
para fora de alguma coisa morta.


Senta-te aqui, fala comigo,
faz sentido
e totalidade à minha volta!»


Manuel António Pina in Poesia Reunida, pag.205, Assírio e Alvim, 2001

 

 

Há alturas em que a vida faz sentido ... outras nem tanto.

Doca dos pescadores

Setúbal, Novembro de 2011

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 00:03
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Terça-feira, 11 de Outubro de 2011

As palavras fazem sentido

As palavras fazem sentido

 

«As palavras fazem

sentido (o tempo que levei até descobrir isto!),

um sentido justo,

feito de mais palavras.

(A impossibilidade de falar

e de ficar calado

não pode parar de falar,

escrevi eu ou outro).

 

Volto a casa.

ao princípio,

provavelmente um pouco mais velho.

As mesmas árvores,

mais velhas

a lembrança delas

passando sem tempo nos meus olhos,

como uma ideia feita ou um sentimento.

 

Entre o que regressa

e o que partiu um dia

ficaram palavras;

 

talvez (quem sabe?)

algum sentido.

Agora, como um intruso, subo as

escadas e abro a porta; e entro, vivo,

para fora de alguma coisa morta.

Senta-te aqui, fala comigo,

faz sentido

e totalidade à minha volta!»

 

Manuel António Pina in Poesia Reunida

 

Fim de tarde em Troia,Troia, Setúbal

Setembro de 2011

Jorge Soares


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Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

Cheguei demasiado tarde e já todos se tinham ido embora

Uma janela perdida no tempo

 

“Que dia? Que olhar?”

 

Cheguei demasiado tarde

e já todos se tinham ido embora

restavam paeis velhos, vidas mortas,

identidade, sujidade, eternidade.

 

Comeram o meu corpo e

beberam o meu sangue; e, pelo caminho, a minha biblioteca;

e escreveram a minha Obra Completa;

sobro, desapossado, eu.

 

Resta-me ver televisão,

votar, passear o cão

(a cidadania!). Prosa também podia,

e lentidão, mas algo (talvez o coração) desacertaria.

 

Pôr-me aos tiros na cara como Chamfort?

Dar em aforista ou ainda pior?

Mudar de cidade? Desabitar-me?

Posmodernizar-me? Experienciar-me?

 

Com que palavras e sem que palavras?

Os substantivos rareiam, os verbos vagueiam

por salões vazios e incendiados

entregando-se a guionistas e aparentados.

 

Cheira excessivamente a morte por aqui

como no fim de uma batalha cansada

de feridas antigas, e eu sobrevivi

do lado errado e pela razão errada.

 

“Que dia? Que olhar?”

(Beckett, “Dias felizes”)

Que feridas? Que estanda-

te? Que alheias cicatrizes?

 

Estou diante de uma porta (de uma forma)

com o – como dizer? – coração

(um sítio sem lugar, uma situação)

cheio de palavras últimas e discórdia.

 


Manuel António Pina

 

Uma fotografia de quando para mim a técnica era olhar para o que queria fotografar e carregar no botão da máquina.. 

 

Porto, Junho de 2008

Jorge Soares

 

28 de Jun de 2008, Câmara: OLYMPUS IMAGING CORP.FE-140,X-725, ISO: 80, Exp.: 1/100 seg.,Abert.: 5.3,Ext.: 15.3mm


publicado por Jorge Soares às 00:14
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