Quinta-feira, 4 de Setembro de 2014

A vida é tão simples que ninguém a entende

Simples

 

 

- Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida.
- A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou não-Deus...
Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar o que me resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por onda. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações.
Mia Couto, in Mar me quer, Caminho, 2013
Fotografia tirada algures nos caminhos da minha infância
Alviães, Oliveira de Azemeis
Junho de 2014
Jorge Soares

publicado por Jorge Soares às 22:19
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Domingo, 13 de Outubro de 2013

Esta deveria ser a hora em que me recolheria

Solidão

 

Solidão

 

Aproximo-me da noite 
o silêncio abre os seus panos escuros 
e as coisas escorrem 
por óleo frio e espesso 

Esta deveria ser a hora 
em que me recolheria 
como um poente 
no bater do teu peito 
mas a solidão 
entra pelos meus vidros 
e nas suas enlutadas mãos 
solto o meu delírio 

É então que surges 
com teus passos de menina 
os teus sonhos arrumados 
como duas tranças nas tuas costas 
guiando-me por corredores infinitos 
e regressando aos espelhos 
onde a vida te encarou 

Mas os ruídos da noite 
trazem a sua esponja silenciosa 
e sem luz e sem tinta 
o meu sonho resigna 

Longe 
os homens afundam-se 
com o caju que fermenta 
e a onda da madrugada 
demora-se de encontro 
às rochas do tempo 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

 

 

Com um tripé de certeza que sairia mais nítida e sem tanto ruido... mas será que ela se deixava apanhar?

Burgos

Agosto de 2013

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 22:11
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Sábado, 21 de Setembro de 2013

Anjo ou demónio?

Notre Dame

 

 

Cada um descobre o seu anjo tendo um caso com o demônio.

Mia Couto



Catedral de Notre Dame

Paris, França

Agosto de 2013

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 16:45
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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2013

O bom caminho

Caminho

 

O bom do caminho 
é haver volta.
Para ida sem vinda, 
basta o tempo.


Mia Couto


A pedra das muralhas

Sortelha, Sabugal

Dezembro de 2012

Jorge Soares



publicado por Jorge Soares às 21:20
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Sábado, 24 de Novembro de 2012

Demoro-me no outro lado de mim

Pensando a vida

 

Demoro-me no outro lado de mim
porque me atrai
esse ser impossível
que sou
esse ser que me nega
para que seja ainda eu
Porque desejo esse alguém
que me invade e me ocupa
que me usurpou a palavra e o gesto
me fez estrangeiro do meu corpo
e me deixou mudo, contemplando-me.
Lanço-me na procura da minha pedra
no infindável trabalho
de me reconstruir
recolhendo os sinais do meu desaparecimento
percorrendo o revés da viagem
para regressar a um lugar inabitável.
Todas as vezes que me venci
não me separei do meu sonho derrotado
e, assim, me fiz nuvem
reparti-me em infinitas gotas
para que fosse bebido, vertido, transpirado
e voltasse de novo a ser céu
transparência de azul, harmonia perfeita
e poder regressar ao lugar interior
para me deitar, de novo,
no sangue que me iniciou.

 

Mia Couto 

 

Parque Urbano de Albarquel

Setúbal, Setembro de 2012

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 10:06
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Quinta-feira, 11 de Outubro de 2012

Para a tua boca, todas as vidas.

Mulher passeia na praia

 

Desiguais as contas:
para cada anjo, dois demónios.

Para um só Sol, quatro Luas.

Para a tua boca, todas as vidas.

MIA COUTO

Do poema "Números",
no livro "Idades cidades divindades"

Mulher passeia na areia molhada da Praia do Meco

Sesimbra, Julho de 2012

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 00:03
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Terça-feira, 9 de Outubro de 2012

que fechadura encerra os dois lados do infinito?

a aldraba

 

 As Ruas



No tempo
em que havia ruas,
ao fim da tarde
minha mãe nos convocava:

era a hora do regresso.
E a rua entrava
connosco em casa.
Tanto o Tempo
morava em nós
que dispensávamos futuro.
Recolhida em meu quarto,
a cidade adormecia
no mesmo embalo da nossa mãe.
À entrada da cama
eu sacudia a areia dos sonhos
e despertava vidas além.
Entre casa e mundo
nenhuma porta cabia:
que fechadura encerra
os dois lados do infinito?

Mia Couto
In "Tradutor de chuvas", Ed. Caminho.

 

Farol do Cabo São Vicente

Sagres

Julho de 2012

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 00:04
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Sexta-feira, 5 de Outubro de 2012

Fui sabendo de mim

O açude

 

 

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia


fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

MIA COUTO

publicado por Jorge Soares às 22:53
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Sábado, 29 de Setembro de 2012

Talvez o amor, neste tempo, seja ainda cedo

Talvez o amor, neste tempo, seja ainda cedo


Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo


"Poema de despedida",
In "Raiz de orvalho e outros poemas"

 

 

Nas margens do Rio Eo num dia de verão nas Astúrias

Agosto de 2012
Jorge Soares

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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011

Preciso ser um outro para ser eu mesmo

Faro de Bustos, Astúrias

 

Identidade


Preciso ser um outro 
para ser eu mesmo 

Sou grão de rocha 
Sou o vento que a desgasta 

Sou pólen sem insecto 

Sou areia sustentando 
o sexo das árvores 

Existo onde me desconheço 
aguardando pelo meu passado 
ansiando a esperança do futuro 

No mundo que combato morro 
no mundo por que luto nasço 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

 

Faro de Busto

Luarca, Astúrias,  Espanha

Agosto de 2011


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Domingo, 23 de Outubro de 2011

.. há neste mundo ...

.... há neste mundo mais medo de coisas más que coisas más propriamente ditas ....

 

.... há neste mundo mais medo de coisas más que coisas más propriamente ditas ....

 

Mia Couto

 

Alviães, Oliveira de Azemeis

Agosto de 2011

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 16:28
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Sábado, 22 de Outubro de 2011

Rio ancorado

Fim de tarde em Troia

 

Quando já não havia outra tinta no mundo o poeta usou do seu próprio sangue.
Não dispondo de papel, ele escreveu no próprio corpo.
Assim, nasceu a voz, o rio em si mesmo ancorado.
Como o sangue: sem voz nem nascente.

--Mia Couto

 

Fim de tarde em Troia, Outubro de 2011

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 10:42
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Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Identidade

Quinta da regaleira, o poço 

Identidade

 

Preciso ser um outro 
para ser eu mesmo 

Sou grão de rocha 
Sou o vento que a desgasta 

Sou pólen sem insecto 

Sou areia sustentando 
o sexo das árvores 

Existo onde me desconheço 
aguardando pelo meu passado 
ansiando a esperança do futuro 

No mundo que combato morro 
no mundo por que luto nasço 

 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

 

Quinta da Regaleira

Sintra, Outubro de 2009

Jorge Soares

 

Oct 5, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 400, Exposição: 1/10 seg., Abertura: 3.5, Extensão focal: 18mm, Flash utilizado: Não


publicado por Jorge Soares às 08:00
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Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Solidão

Solidão 

 

Solidão

 

Aproximo-me da noite 
o silêncio abre os seus panos escuros 
e as coisas escorrem 
por óleo frio e espesso 

Esta deveria ser a hora 
em que me recolheria 
como um poente 
no bater do teu peito 
mas a solidão 
entra pelos meus vidros 
e nas suas enlutadas mãos 
solto o meu delírio 

É então que surges 
com teus passos de menina 
os teus sonhos arrumados 
como duas tranças nas tuas costas 
guiando-me por corredores infinitos 
e regressando aos espelhos 
onde a vida te encarou 

Mas os ruídos da noite 
trazem a sua esponja silenciosa 
e sem luz e sem tinta 
o meu sonho resigna 

Longe 
os homens afundam-se 
com o caju que fermenta 
e a onda da madrugada 
demora-se de encontro 
às rochas do tempo 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

 

 

Nov 9, 2008, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 320, Exposição: 1/320 seg.,Abertura: 5.6,Extensão focal: 200mm

 

Fim de tarde de Novembro na praia do Meco,

 

Sesimbra, Setúbal

Novembro de 2008

 

 


publicado por Jorge Soares às 08:07
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