Quarta-feira, 6 de Março de 2013

Que vai de céu em céu, De mar em mar

O sol

 

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar…

 

Miguel Torga, in ‘Diário XII’

 

E de repente entrou-me a sodade.

Por do sol na Praiinha

Cabo Verde, Fevereiro de 2010

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 08:59
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Terça-feira, 27 de Novembro de 2012

Tarde pintada por não sei que pintor.

Folhas do Outono

 

 

Outono

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga, Diário X (1966)


Uma folha de plátano pintada com as cores do Outono

jardim do Bonfim, Setúbal

Outubro de 2012

Jorge Soares


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Quinta-feira, 8 de Março de 2012

A ti mulher

recomeça

 

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, Diário XIII 

 

Troia, Novembro de 2012

Jorge Soares


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Sábado, 24 de Dezembro de 2011

Outro Natal

É natal

 

Outro natal,
Outra comprida noite
De consoada Fria,

Vazia,
Bonita só de ser imaginada.
Que fique dela, ao menos,
Mais um poema breve
Recitado Pela neve
A cair, ao de leve,
No telhado.
Miguel Torga

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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

E os passos que deres ....

Pegadas

 

Recomeçar

 

Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

 

Miguel Torga

 

 

Os meus passos sobre a areia molhada

Praia do Carvalhal, Grândola, Setúbal, Outubro de 2011

Jorge Soares


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Sexta-feira, 26 de Agosto de 2011

Monsaraz: Insónia Alentejana

Alentejo, Monsaraz

 

Insónia Alentejana

Pátria pequena, deixa-me dormir,
Um momento que seja,
No teu leito maior, térrea planura
Onde cabe o meu corpo e o meu tormento.
Nesta larga brancura
De restolhos, de cal e solidão,
E ao lado do sereno sofrimento
Dum sobreiro a sangrar,
Pode, talvez, um pobre coração
Bater e ao mesmo tempo descansar...

 

Miguel Torga

 

Monsaraz, Alentejo

Julho de 2011

Jorge Soares


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Quinta-feira, 25 de Agosto de 2011

Alentejo: Terra da cor dos olhos de quem olha!

Sol e Sombra em Monsaraz

 

Alentejo

A lua que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar!...

 

Miguel Torga

 

Sol e Sombra num fim de tarde em Monsaraz, Alentejo

Julho de 2011

Jorge Soares


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Terça-feira, 17 de Maio de 2011

o poema duma macieira.

Poema de uma macieira

 

Este é o poema duma macieira.

Quem quiser lê-lo,

Quem quiser vê-lo,

Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.

 

Floriu assim pela primeira vez.

Deu-lhe um sol de noivado,

E toda a virgindade se desfez

Neste lirismo fecundado.

 

São dois braços abertos de brancura;

Mas em redor

Não há coisa mais pura,

Nem promessa maior.

 

Miguel Torga

 

 

Obrigado Lídia

Setúbal, Maio de 2010

Jorge Soares


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Segunda-feira, 9 de Maio de 2011

Tudo o que vires é teu

Tudo o que vires é teu

 

"Abre a janela, e olha!
Tudo o que vires é teu.
A seiva que lutou em cada folha,
E a fé que teve medo e se perdeu.
Abre a janela, e colhe!
É o que quiser a tua mão atenta:
Água barrenta,
Água que molhe,
Água que mate a sede...
Abre a janela, quanto mais não seja
Para que haja um sorriso na parede!"

 

Miguel Torga

 

Portela do Homem, Parque natural da Peneda Gerês

Novembro de 2010

Jorge Soares

 

30 de Out de 2010, Câmara: SONY DSLR-A350,ISO: 400, Exp.: 1/60 seg.Abert.: 5.0 Ext.: 30mm, Flash: Sim


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Segunda-feira, 21 de Março de 2011

Poema à Primavera

à Primavera, Miguel Torga

 

Poema à Primavera

 

Depois do Inverno, 
morte figurada, 
A primavera,
uma assunção de flores. 
A vida 
Renascida 
E celebrada 
Num festival de pétalas e cores. 


Miguel Torga

 

Alviães, Oliveira de Azemeis

Março de 2011


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Sexta-feira, 18 de Março de 2011

Perspectiva

Jardins de Serralves, Porto

 

Perspectiva

 

Olho a sebe dos versos que plantei

Ao longo do caminho dos meus dias:

Tristezas e alegrias,

Enlaçadas

Como irmãs vegetais.

Silvas e alecrim...

O pior e o melhor que havia em mim

Num abraço de arbustos fraternais.

Nada quero mudar dessa harmonia

De argruras e doçuras misturadas.

Pasmo é de ver a estranha maravilha.

Poeta que partilha

O coração magoado

Por presentes e opostas emoções

Comtemplo , deslumbrado,

O renque de vivências do passado,

Longo poema sem contradições.

 

Miguel Torga

 

Jardins de Serralves

Porto, Março de 2011

Jorge Soares


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Domingo, 23 de Janeiro de 2011

Longo foi o caminho

Fim do dia em Roma

 

Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei.
E caísse de pé, num desafio
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

Miguel Torga

 

 

Fim de tarde no Foro Romano, Roma

Dezembro de 2010

Jorge Soares


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Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011

Não tenho deuses. Vivo

A folha em Roma

 

Princípio

 

Não tenho deuses. Vivo 
Desamparado. 
Sonhei deuses outrora, 
Mas acordei. 
Agora 
Os acúleos são versos, 
E tacteiam apenas 
A ilusão de um suporte. 
Mas a inércia da morte, 
O descanso da vide na ramada 
A contar primaveras uma a uma, 
Também me não diz nada. 
A paz possível é não ter nenhuma. 

Miguel Torga, in 'Penas do Purgatório

 

Ao longo do rio Tibre há plátanos, árvores enormes que no verão devem encher as margens de sombra refrescante. Nesta altura estavam a preparar as roupagens de inverno e por todos os lados havia folhas caídas, esta aterrou bem à minha frente em cima de um dos muros da ponte Fabricio.

 

Roma, Dezembro de 2010

Jorge Soares


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Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011

Orgasmo

Dia de Inverno no planalto da Serra da Estrela

 

ORGASMO


Deixa que eu te descubra, anónima paisagem,
Corpo de virgem que não amo ainda!
Fauno das fragas e dos horizontes,
Sonho contigo sem te conhecer…
Sonho contigo nua, a pertencer
Ao silêncio devasso e à solidão!
Num pesadelo, vejo amanhecer
O sol e o vento no teu coração!


E é um ciúme de Otelo que me rói!
Só eu não posso acarinhar a sombra
Do teu rosto velado!
Só eu vivo afastado
Dos teus encantos!
E são tantos
E tais!
Que eu não posso, paisagem,
Esperar mais!

 

Miguel Torga

 

Para quem se queixou do titulo do post do outro dia... ora, aqui está um titulo quente para uma paisagem bela mas muito fria.

 

Neve no planalto central da Serra da Estrela

 

Dezembro de 2010

Jorge Soares

 

26 de Dez de 2010, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 100, Exp.: 1/160 seg., Abert.: 13.0, Ext.: 55mm,Flash: Não


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Quinta-feira, 11 de Novembro de 2010

Bela dona

 

 

À Beleza

 

Não tens corpo, nem pátria, nem família, 
Não te curvas ao jugo dos tiranos. 
Não tens preço na terra dos humanos, 
Nem o tempo te rói. 
És a essência dos anos, 
O que vem e o que foi. 

És a carne dos deuses, 
O sorriso das pedras, 
E a candura do instinto. 
És aquele alimento 
De quem, farto de pão, anda faminto. 

És a graça da vida em toda a parte, 
Ou em arte, 
Ou em simples verdade. 
És o cravo vermelho, 
Ou a moça no espelho, 
Que depois de te ver se persuade. 

És um verso perfeito 
Que traz consigo a força do que diz. 
És o jeito 
Que tem, antes de mestre, o aprendiz. 

És a beleza, enfim. És o teu nome. 
Um milagre, uma luz, uma harmonia, 
Uma linha sem traço... 
Mas sem corpo, sem pátria e sem família, 
Tudo repousa em paz no teu regaço. 

Miguel Torga, in 'Odes'

 

 

Setúbal, Outubro de 2010

Jorge Soares

 

16 de Out de 2010, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 100, Exp: 1/250, Abertura: 6.3, Extensão focal: 135 mm, Flash: Não


publicado por Jorge Soares às 23:47
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A vida pintada em tons dourados

Outono

 

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.


Miguel Torga

 

Outono no Jardim de Vanicelos

Setúbal, Outubro de 2010

Jorge Soares


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Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

Livre

Cavalo alado

 

Livre não sou, que nem a própria vida 
Mo consente. 
Mas a minha aguerrida 
Teimosia 
É quebrar dia a dia 
Um grilhão da corrente. 

Livre não sou, mas quero a liberdade. 
Trago-a dentro de mim como um destino. 
E vão lá desdizer o sonho do menino 
Que se afogou e flutua 
Entre nenúfares de serenidade 
Depois de ter a lua! 

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

 

 

O cavalo ia em grande velocidade, e a luz do fim de tarde já era pouca... talvez o modo na máquina também não fosse o mais adequado... está tremida, eu sei... mas decidi que gosto na mesma...
Representação de o Casamento do Viriato pelos Fatias de Cá, Almourol, Vila Nova da Barquinha
Setembro de 2010
Jorge Soares

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Quinta-feira, 22 de Julho de 2010

É o vento que me leva

Gaivotas em voo

 

 

Viagem

 

É o vento que me leva. 
O vento lusitano. 
É este sopro humano 
Universal 
Que enfuna a inquietação de Portugal. 
É esta fúria de loucura mansa 
Que tudo alcança 
Sem alcançar. 
Que vai de céu em céu, 
De mar em mar, 
Até nunca chegar. 
E esta tentação de me encontrar 
Mais rico de amargura 
Nas pausas da ventura 
De me procurar... 

Miguel Torga, in 'Diário XII'

 

Gaivotas na praia em Salema, Lagos,  Algarve

Junho de 2010

Jorge Soares


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Terça-feira, 29 de Junho de 2010

Tempo

 

 

Relógio de sol

 

Tempo — definição da angústia. 
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te 
Ao coração pulsátil dum poema! 
Era o devir eterno em harmonia. 
Mas foges das vogais, como a frescura 
Da tinta com que escrevo. 
Fica apenas a tua negra sombra: 
— O passado, 
Amargura maior, fotografada. 

Tempo... 
E não haver nada, 
Ninguém, 
Uma alma penada 
Que estrangule a ampulheta duma vez! 

Que realize o crime e a perfeição 
De cortar aquele fio movediço 
De areia 
Que nenhum tecelão 
É capaz de tecer na sua teia! 

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

 

 

Relógio de Sol em Setúbal

Abril de 2010

Jorge Soares


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Terça-feira, 23 de Março de 2010

Tempo

 

Tempo

 

Tempo — definição da angústia. 
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te 
Ao coração pulsátil dum poema! 
Era o devir eterno em harmonia. 
Mas foges das vogais, como a frescura 
Da tinta com que escrevo. 
Fica apenas a tua negra sombra: 
— O passado, 
Amargura maior, fotografada. 

Tempo... 
E não haver nada, 
Ninguém, 
Uma alma penada 
Que estrangule a ampulheta duma vez! 

Que realize o crime e a perfeição 
De cortar aquele fio movediço 
De areia 
Que nenhum tecelão 
É capaz de tecer na sua teia! 

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

 

Bragança, Torre da Sé

Agosto de 2009

Jorge Soares


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Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

À beleza

A beleza

 

Não tens corpo, nem pátria, nem família, 

Não te curvas ao jugo dos tiranos. 

Não tens preço na terra dos humanos, 

Nem o tempo te rói. 

És a essência dos anos, 

O que vem e o que foi. 

 

És a carne dos deuses, 

O sorriso das pedras, 

E a candura do instinto. 

És aquele alimento 

De quem, farto de pão, anda faminto. 

 

És a graça da vida em toda a parte, 

Ou em arte, 

Ou em simples verdade. 

És o cravo vermelho, 

Ou a moça no espelho, 

Que depois de te ver se persuade. 

 

És um verso perfeito 

Que traz consigo a força do que diz. 

És o jeito 

Que tem, antes de mestre, o aprendiz. 

 

És a beleza, enfim. És o teu nome. 

Um milagre, uma luz, uma harmonia, 

Uma linha sem traço... 

Mas sem corpo, sem pátria e sem família, 

Tudo repousa em paz no teu regaço. 

 

Miguel Torga, in 'Odes'

 

Rio Judeu, Seixal

Outubro de 2008


publicado por Jorge Soares às 08:00
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Quinta-feira, 6 de Agosto de 2009

Viagem

Bragança, rio Fervença, reflexos 

Viagem

 

É o vento que me leva. 
O vento lusitano. 
É este sopro humano 
Universal 
Que enfuna a inquietação de Portugal. 
É esta fúria de loucura mansa 
Que tudo alcança 
Sem alcançar. 
Que vai de céu em céu, 
De mar em mar, 
Até nunca chegar. 
E esta tentação de me encontrar 
Mais rico de amargura 
Nas pausas da ventura 
De me procurar... 

Miguel Torga, in 'Diário XII'

 

Reflexos no rio Fervença, Bragança

Julho de 2009

Jorge Soares

 

Jul 25, 2009,Câmara: SONY DSLR-A350,ISO: 100,Exposição: 1/400 seg.,Abertura: 10.0,Extensão focal: 18mm


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Terça-feira, 9 de Junho de 2009

A viagem

A viagem

 

 VIAGEM

 

Aparelhei o barco da ilusão

E reforcei a fé de marinheiro

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro

O mar…

 

(Só nos é concedida esta vida

Que temos;

E é nela que é preciso

Procurar

O velho paraíso

Que perdemos.)

 

Prestes, larguei a vela

E disse adeus ao cais, à paz tolhida.

Desmedida,

A revolta imensidão

Transforma dia a dia a embarcação

Numa errante e alada sepultura...

Mas corto as ondas sem desanimar.

Em qualquer aventura

O que importa é o partir, não o chegar.

 

Miguel Torga

 

Rio Sado, Setúbal, Junho de 2008

Câmara: OLYMPUS FE-140,X-725, ISO: 80, Exposição: 1/250 seg., Abertura: 8.5,Extensão focal: 18.9mm


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Terça-feira, 12 de Maio de 2009

À beleza

Dente de Leão

 

 À Beleza

 

Não tens corpo, nem pátria, nem família, 

Não te curvas ao jugo dos tiranos. 

Não tens preço na terra dos humanos, 

Nem o tempo te rói. 

És a essência dos anos, 

O que vem e o que foi. 

 

És a carne dos deuses, 

O sorriso das pedras, 

E a candura do instinto. 

És aquele alimento 

De quem, farto de pão, anda faminto. 

 

És a graça da vida em toda a parte, 

Ou em arte, 

Ou em simples verdade. 

És o cravo vermelho, 

Ou a moça no espelho, 

Que depois de te ver se persuade. 

 

És um verso perfeito 

Que traz consigo a força do que diz. 

És o jeito 

Que tem, antes de mestre, o aprendiz. 

 

És a beleza, enfim. És o teu nome. 

Um milagre, uma luz, uma harmonia, 

Uma linha sem traço... 

Mas sem corpo, sem pátria e sem família, 

Tudo repousa em paz no teu regaço. 

 

Miguel Torga, in 'Odes'


publicado por Jorge Soares às 21:01
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Quinta-feira, 19 de Março de 2009

Aos poetas

Camões

 

Aos poetas


Somos nós
As humanas cigarras.
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos...
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar...

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.

E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.

Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.

Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão. 

Miguel Torga


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