Segunda-feira, 10 de Agosto de 2015

Vamos mengana a usar la maravilla

 

 

Vamos mengana a usar la maravilla
esa vislumbre que no tiene dueño
afila tu delirio / arma tu sueño
en tanto yo te espero en la otra orilla
si somos lo mejor de los peores
gastemos nuestro poco albedrio
recupera tu cuerpo / hacelo mío
que yo lo aceptare de mil amores
y ya que estamos todos en capilla
y dondequiera el mundo se equivoca
aprendamos la vida boca a boca
y usemos de una vez la maravilla.


Mário Benedetti

 

Algures nas Astúrias, 

Agosto de 2014

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 22:08
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Domingo, 9 de Agosto de 2015

Que o mais simples Fosse visto como o mais importante..

 

 

Quem me dera
ao menos uma vez
Que o mais simples
Fosse visto como o mais importante...

Renato Russo

 

Algures nas Asturias

Agosto de 2014

Jorge Soares

 


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Quarta-feira, 5 de Agosto de 2015

Tão bom viver dia a dia...

 

Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

 

Mario Quintana

 

Algures nas Astúrias

Agosto de 2014

Jorge Soares


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Quinta-feira, 16 de Janeiro de 2014

Eu não tenho gato

Eu não tenho gato

 

Quem há-de abrir a porta ao gato 
quando eu morrer? 

Sempre que pode 
foge prá rua, 
cheira o passeio 
e volta pra trás, 
mas ao defrontar-se com a porta fechada 
(pobre do gato!) 
mia com raiva 
desesperada. 
Deixo-o sofrer 
que o sofrimento tem sua paga, 
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre pra mim 
como acorre a mulher aos braços do amante. 
Pego-lhe ao colo e acaricio-o 
num gesto lento, 
vagarosamente, 
do alto da cabeça até ao fim da cauda. 
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos, 
olhos semi-cerrados, em êxtase, 
ronronando. 

Repito a festa, 
vagarosamente. 
do alto da cabeça até ao fim da cauda. 
Ele aperta as maxilas, 
cerra os olhos, 
abre as narinas. 
e rosna. 
Rosna, deliquescente, 
abraça-me 
e adormece. 

Eu não tenho gato, mas se o tivesse 
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


António Gedeão

 

Sortelha, Dezembro de 2013

Jorge Soares


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Sábado, 7 de Dezembro de 2013

Dúvida

Outono

 

Dúvida

 

Eu corro atrás da memória 
De certas coisas passadas 
Como de um conto de fadas, 
De uma velha, velha história... 

Tão longe do que hoje sou 
Que nem sei se quem recorda 
Foi aquele que as passou, 
Ou se apenas as sonhou 
E agora, súbito, acorda. 

Francisco Bugalho, in "Canções de Entre Céu e Terra"

 

O Outono num banco do Jardim don Bonfim

Setúbal, Novembro de 2013

Jorge Soares


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Domingo, 13 de Outubro de 2013

Esta deveria ser a hora em que me recolheria

Solidão

 

Solidão

 

Aproximo-me da noite 
o silêncio abre os seus panos escuros 
e as coisas escorrem 
por óleo frio e espesso 

Esta deveria ser a hora 
em que me recolheria 
como um poente 
no bater do teu peito 
mas a solidão 
entra pelos meus vidros 
e nas suas enlutadas mãos 
solto o meu delírio 

É então que surges 
com teus passos de menina 
os teus sonhos arrumados 
como duas tranças nas tuas costas 
guiando-me por corredores infinitos 
e regressando aos espelhos 
onde a vida te encarou 

Mas os ruídos da noite 
trazem a sua esponja silenciosa 
e sem luz e sem tinta 
o meu sonho resigna 

Longe 
os homens afundam-se 
com o caju que fermenta 
e a onda da madrugada 
demora-se de encontro 
às rochas do tempo 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

 

 

Com um tripé de certeza que sairia mais nítida e sem tanto ruido... mas será que ela se deixava apanhar?

Burgos

Agosto de 2013

Jorge Soares


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Segunda-feira, 29 de Julho de 2013

um labirinto de ruelas.

Castelo de Vide

 

À deserta praça
conduz um labirinto de ruelas.
A um lado, o velho paredão sombrío
de uma igreja em ruínas;
a outro lado, o muro esbranquiçado
de um horto de ciprestes e palmeiras,
e, frente a mim, a casa,
e na casa a grade
ante o cristal que levemente empana
sua figurinha plácida e risonha.
Vou ausentar-me. Não quero
chamar a tua janela… Primavera
vem — seu vestido branco
flutua no ar da praça morta — ;
vem acender as rosas
vermelhas de teus rosais… Quero vê-la…


António Machado


Castelo de Vide

Julho de 2013

Jorge Soares


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Terça-feira, 30 de Abril de 2013

Diálogo da Primavera

Primavera

 

Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado

Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as ideias
o sonho
o passado
o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio.
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.


Carlos Drummond de Andrade

 

Algures no Algarve num dia frio frio de uma Primavera fria

Março de 2013

Jorge Soares


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Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

Com uma desconhecida, que amo e que me ama

Primavera casta


Tenho às vezes um sonho estranho e penetrante
Com uma desconhecida, que amo e que me ama
E que, de cada vez, nunca é bem a mesma
Nem é bem qualquer outra, e me ama e compreende.

Porque me entende, e o meu coração, transparente
Só pra ela, ah!, deixa de ser um problema
Só pra ela, e os suores da minha testa pálida,
Só ela, quando chora, sabe refrescá-los.

Será morena, loira ou ruiva? — Ainda ignoro.
O seu nome? Recordo que é suave e sonoro
Como esses dos amantes que a vida exilou.

O olhar é semelhante ao olhar das estátuas
E quanto à voz, distante e calma e grave, guarda
Inflexões de outras vozes que o tempo calou.

Paul Verlaine, in "Melancolia"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

 

Mértola, Março de 2013

Jorge Soares


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Sexta-feira, 22 de Março de 2013

Dois amantes ditosos

Aves

 

Dois amantes ditosos fazem um só pão,
uma só gota de lua na erva,
deixam andando duas sombras que se reúnem,
deixam um só sol vazio numa cama...

De todas as verdades escolheram o dia....
não se ataram com fios senão com um aroma,
e não despedaçaram a paz nem as palavras...
A ventura é uma torre transparente...
O ar, o vinho vão com os dois amantes,
a noite lhes oferta suas ditosas pétalas,
têm direito a todos os cravos...

Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem...
têm da natureza a eternidade...

 

Pablo Neruda


Com um cheirinho a Primavera... ou, ainda os pardais

Setúbal, Março de 2013

Jorge Soares

 


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Sábado, 16 de Março de 2013

Envolto nos temporais

Dias de Tempestade

 

 

Quando cedo me levanto
Envolto nos temporais
Invade-me o desencanto
Não posso sair do cais

Eu gosto de navegar
Nas calmas aguas da Ria 
Impedido de ir pró mar
É aqui que passo o dia

Por aqui vou navegando
Só Deus sabe até quando
Remando na solidão

Em saudade que não esquece
Aos ceus rezando uma prece
Contida em minha oração

16MAR13
João Severino


Setúbal, Maio de 2012

Jorge Soares


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Quarta-feira, 13 de Março de 2013

Charneca em Flor

Charneca em Flor


Charneca em Flor

 

Enche o meu peito, num encanto mago, 
O frêmito das coisas dolorosas... 
Sob as urzes queimadas nascem rosas... 
Nos meus olhos as lágrimas apago... 

Anseio! Asas abertas! O que trago 
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas 
Murmurar-me as palavras misteriosas 
Que perturbam meu ser como um afago! 

E nesta febre ansiosa que me invade, 
Dispo a minha mortalha, o meu burel, 
E, já não sou, Amor, Sóror Saudade... 

Olhos a arder em êxtases de amor, 
Boca a saber a sol, a fruto, a mel: 
Sou a charneca rude a abrir em flor! 

Florbela Espanca


Algures no sopé da Arrábida num dia de Primavera

Junho de 2012

Jorge Soares


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Segunda-feira, 11 de Março de 2013

Quando Vier a Primavera

quando vier a Primavera



Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim. 

Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma 

Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo. 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é. 


(Poemas Inconjuntos, heterónimo de Fernando Pessoa)

Alberto Caeiro


Apesar da muita chuva e do tempo frio, o sopé da arrábida vai-se enchendo de cor com o aparecimento das primeiras flores silvestres.

Setúbal, Fevereiro de 2013

Jorge Soares


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Sábado, 9 de Março de 2013

O que todos os pais pensam

Eu não acredito em deus

O que todos os pais pensam

 

não acredito em deus

eu dizia nas solidões

não acredito em nada

 

as pedras ainda são as pedras entretanto

o céu ainda empurra nuvem depois de nuvem

chove e nos janeiros é ruim dormir porque o calor tem asas de mosquito

deus não está me observando e nem vai me punir porque não acredito

 

as lágrimas ainda lavam as mais belas bochechas

assim como lavam também as faces feias

os rostos dos condenados a passar anos na cadeia

as mãos despretensiosas dos trabalhadores indonésios

os lenços de papel burgueses

eu choro por uma porção de razões minhas

lágrimas amigas choram seus motivos (às vezes eu sou o motivo)

deus não faz nada para enxugá-las

deus não sabe nada sobre as alegrias e as tristezas

deus não sabe nada sobre o meu menino

 

meu menino vai ter suas cantoras preferidas e vai se apaixonar por elas e pelas mulheres que as canções de suas cantoras o lembrarem

vai chorar desesperado algumas vezes na vida e eu não vou poder fazer muita coisa

além de dizer que isso passa e que as garotas sempre nos fazem chorar

e que nem é bom ouvir certas canções em certas datas

mas que elas nos fazem muito bem também

e que quando elas estiverem tristes vai ser bom poderem contar com ele

porque ele será um bom rapaz

não só um belo homem mas um bom rapaz

 

(considerando que ele vá gostar de garotas

se ele gostar de rapazes as coisas não serão muito diferentes)

 

mas 

antes disso

meu menino vai ter de aprender a andar

e é muito bonito ver o esforço dos primeiros passos

e as suas gargalhadas pelas menores coisas de seu pequeno universo

(as coisas abstratas ele só vai entender 

quando já houver chorado por coisas abstratas)

 

deus não sabe que meu menino ainda não sabe andar

deus não sabe que meu menino tem muita sorte e muitos amores e uns quantos pares de olhos e mãos e pés para cuidar dele bem melhor que eu

e ainda que tudo corra bem

todos vão pensar ter feito algo errado

 

desconsiderando deus

todos os pais pensam

 

V.

Retirado de Samizdat 

 

Setúbal, Fevereiro de 2013

Jorge Soares


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Quinta-feira, 7 de Março de 2013

Sinto no murmurar das águas

rio

 

Sinto no murmurar das águas 
deste rio da minha vida, 
onde navegávamos na mansidão do luar
e rejubilávamos na alegria da juventude,
as melodias da felicidade,
acariciadas pela brisa daquele tempo, 
de palmeiras verdes de esperança,
onde as brumas da incerteza não existiam!

E agora, contemplando o caudal deste rio
ressequido por este tempo que se faz presente
sufoco o choro de lágrimas da nostalgia,
que me aperta o peito, na dor feita saudade!
E aqui estou, sentado, nas areias que margeiam
este rio cansado, pelas mágoas do seu percurso,
esperando nova brisa que me sopre forças,
para continuar a navegar neste leito seco
e chegar ao remanso da minha tranquilidade!

Anseio por novos rios, num tempo
que se faça fértil e de águas calmas,
navegue por entre campos floridos,
ao som melodioso dos chilreios
de aves encantadas, 
de cores garridas da paixão,
ao encontro de um novo viver.

José Carlos Moutinho

 

Algures nas Astúrias

Agosto de 2011

Jorge Soares


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Quarta-feira, 6 de Março de 2013

Que vai de céu em céu, De mar em mar

O sol

 

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar…

 

Miguel Torga, in ‘Diário XII’

 

E de repente entrou-me a sodade.

Por do sol na Praiinha

Cabo Verde, Fevereiro de 2010

Jorge Soares


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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2013

Não há ninguém somente o inverno

Inverno

 

Não falta ninguém no jardim.

Não há ninguém:
somente o inverno verde e negro, o dia
desvelado como uma aparição,
fantasma branco, de fria vestimenta,
pelas escadas dum castelo. É hora
de não chegar ninguém, apenas caem
as gotas que vão espalhando o rocio
nestes ramos desnudos pelo inverno
e eu e tu nesta zona solitária,
invencíveis, sozinhos, esperando
que ninguém chegue, não, que ninguém venha
com sorriso ou medalha ou predisposto
a propor-nos nada.


Pablo Neruda

 

Setúbal, Fevereiro de 2013

Jorge Soares


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Sábado, 9 de Fevereiro de 2013

Calmaria

Imagens do Sado

 

A espantosa realidade das coisas 
É a minha descoberta de todos os dias. 
Cada coisa é o que é, 
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra, 
E quanto isso me basta. 

Basta existir para se ser completo. 

Tenho escrito bastantes poemas. 
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente. 

Cada poema meu diz isto, 
E todos os meus poemas são diferentes, 
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto. 

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra. 
Não me ponho a pensar se ela sente. 
Não me perco a chamar-lhe minha irmã. 
Mas gosto dela por ela ser uma pedra, 
Gosto dela porque ela não sente nada. 
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo. 

Outras vezes oiço passar o vento, 
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido. 

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto; 
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo, 
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar; 
Porque o penso sem pensamentos 
Porque o digo como as minhas palavras o dizem. 

Uma vez chamaram-me poeta materialista, 
E eu admirei-me, porque não julgava 
Que se me pudesse chamar qualquer coisa. 
Eu nem sequer sou poeta: vejo. 
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho: 
O valor está ali, nos meus versos. 
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade. 


Fernando Pessoa


Vistas do rio Sado

Setyúbal, Janeiro de 2012

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 10:52
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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2013

O bom caminho

Caminho

 

O bom do caminho 
é haver volta.
Para ida sem vinda, 
basta o tempo.


Mia Couto


A pedra das muralhas

Sortelha, Sabugal

Dezembro de 2012

Jorge Soares



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Sábado, 2 de Fevereiro de 2013

Barcos

Barcos

 

BARCOS


"Nha terra é quel piquinino
É São Vicente é que di meu"

 

Nas praias
Da minha infância
Morrem barcos
Desmantelados.

 

Fantasmas
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.

 

E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos...
Canto e sorrio...
A embarcação
Para o mar!
É para o mar!...

 

E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu...

 

Yolanda Marazzo

 

Tarrafal, Cabo Verde

Novembro de 2012

Jorge Soares


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Sábado, 19 de Janeiro de 2013

Abril Murchou

Abril murchou

 

Abril Murchou

 

 

Quando os sonhos já não te acordam a sorrir
Que luas te anoitecem, que nuvens te escurecem,
Que ventos e que chuvas ainda estão para vir?...
Muitos dias passaram depois do adeus,
Em que vila morena é que o povo ordena,
Quem ficou a sonhar os sonhos que eram teus?

 

Não sentes uma dor fechada, por ter ficado inacabada
A planta onde surgia um lugar melhor?
Passaram-se anos numa espera, de que valeu essa quimera,
Se a mesma lenga-lenga se vai ouvir de cor?

 

E quando te dás conta já tudo caiu,
Que luta continua, que morte sai á rua,
E em que primeiro dia o Maio amadurece Abril?
E se uns impérios caem que outros vão surgir,
“Que trovas vão avante?”, pergunto ao vento errante,
Se mudam os tempos a vontade é de fugir...

 

Não sentes uma dor fechada, por ter ficado inacabada
A planta onde surgia um lugar melhor?
Passaram-se anos numa espera, de que valeu essa quimera,
Se a mesma lenga-lenga se vai ouvir de cor?

 

 

Miguel Calhaz

 

 

 

 

 

 

 

Uma papoila colhida algures na berma de uma estrada

Setúbal, Março de 2012

Jorge Soares


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Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2013

Canção de Outono

Folhas caídas

 

Canção de Outono

 

Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão, 
se havia gente dormindo 
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles 
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono 
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...


Cecília Meireles


Setúbal, Dezembro de 2012

Jorge Soares


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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013

despida

Despido

 

Uma árvore despida
Perdida num recanto
De um paraíso perdido
Num mundo por inventar
Num mundo por colorir!

Seus braços parados
Sem força para balancear
Seus frutos há muito que
Partiram e a deixaram na
Solidão do ser, do querer.

O seu troco hirto
Mantém de pé um sonho
Perdido, há muito esquecido
Nos ramos sofridos,
Pela solidão da dor…
Uma árvore morre ..
Sempre de pé! !!!


Tulipa

Retirado de Jardins proibidos 

 

Uma velha árvore nas suas ropuagens de inverno

Sortelha, Sabugal

Dezembro de 2012

Jorge Soares


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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2013

Recantos

 

 

 

Quando eu fugir, na ponta duma lança,
Deste albergue noturno, em que me vês.
Não sei que sonho vão, nem que esperança
Vaga de abrir os olhos outra vez..
 
Porque a esperança doce, de criança,
D’inda os poder abrir na placidez
Duma nuança mansa que não cansa,
Lá, para além dos astros, lá, talvez?
 
Há de ser ao cair do sol. Ereto,
Tal como sou, rudíssimo de aspecto,
Mas tão humilde, e teu, e se te apraz,
 
Eu te verei entrar, suave sono,
Nesse veludos pálidos de Outono,
Ó Beatitude! Angelitude! Paz!

 

David Emiliano Perneta



Sortelha, Sabugal

Dezembro de 2012

Jorge Soares


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Sábado, 12 de Janeiro de 2013

Sortelha - A porta

Sortelha

 

Verdade 

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

 

Carlos Drummond de Andrade

 

Sortelha, Sabugal

Dezembro de 2012

Jorge Soares


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Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2013

Este é o Inverno

Suave

 

Este é o inverno

Um frio de leve
vem pra ficar.
A brisa suave
faz a árvore balançar.
O vento sopra
assobiando.
O céu escuro 
vai ficando.
As nuvens passam
de mansinho.
A chuva chega 
devagarinho.
As pessoas correm
abrindo guarda-chuvas.
Vi um homem de casaco
e uma mulher de luvas.
É esse o inverno
sorrateiro.
Vem chegando
e nem avisa primeiro.

 

Clarice Pacheco


Setúbal, Dezembro de 2012

Jorge Soares


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Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2013

A ver o mundo

A olhar para o mundo

 

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…
Alberto Caeiro, em “O Guardador de Rebanhos”

 

Sotelha, Sabugal

Dezembro de 2012

Jorge Soares


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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2013

Mocidade

Mocidade

Mocidade

A mocidade esplêndida, vibrante,
Ardente, extraordinária, audaciosa.
Que vê num cardo a folha duma rosa,
Na gota de água o brilho dum diamante;
Essa que fez de mim Judeu Errante
Do espírito, a torrente caudalosa,
Dos vendavais irmã tempestuosa,
- Trago-a em mim vermelha, triunfante!
No meu sangue rubis correm dispersos:
- Chamas subindo ao alto nos meus versos,
Papoilas nos meus lábios a florir!
Ama-me doida, estonteadoramente,
O meu Amor! que o coração da gente
É tão pequeno... e a vida, água a fugir...
                                       Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

Nas margens do Rio Caima
Palmaz,Oliveira de Azemeis
Dezembro de 2012
Jorge Soares

publicado por Jorge Soares às 09:11
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Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2013

Chegamos? Não chegamos?

Pescadores em Cabo Verde



Pelo sonho é que vamos,

comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,

pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.

Basta a esperança naquilo

que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,

com a mesma alegria,

ao que desconhecemos

e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama (1924-1952)


Pescadores da Cidade Velha

Cabo Verde

Fevereiro de 2010

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 18:11
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... como no Alentejo o branco obstinado

Alentejo

 

Agonia
dos lentos inquietos 
 amarelos, 
 a solidão do vermelho 
sufocado, 
por fim o negro, 
fundo espesso, 
como no Alentejo 
o branco obstinado.

Eugénio de Andrade

 

Evoramonte, Alentejo

Março de 2012

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 08:20
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