Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2012

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos

Cão

 

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova quando
chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de
grandes chuvas e das recordações da infância.
Preciso de um amigo para não enlouquecer, para contar o que vi de belo e triste
durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.
Deve gostar de ruas desertas, de poças d´água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. Preciso de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já tenho um amigo. 
Preciso de um amigo para parar de chorar. Para não viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que me chame de amigo, para que eu tenha a consciência de que ainda vivo"

Vinícius de Moraes



Setúbal, Janeiro de 2012

Jorge Soares


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Quinta-feira, 29 de Novembro de 2012

ausência

Ausência

 

Ausência

 

Um deserto sem água

Numa noite sem lua

Num país sem nome

Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero

Nenhuma ausência é mais funda que a tua

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 
Num fim de tarde no Jardim do Bonfim
Setúbal
Outubro de 2012
Jorge Soares

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Quinta-feira, 11 de Outubro de 2012

Para a tua boca, todas as vidas.

Mulher passeia na praia

 

Desiguais as contas:
para cada anjo, dois demónios.

Para um só Sol, quatro Luas.

Para a tua boca, todas as vidas.

MIA COUTO

Do poema "Números",
no livro "Idades cidades divindades"

Mulher passeia na areia molhada da Praia do Meco

Sesimbra, Julho de 2012

Jorge Soares


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Sábado, 29 de Setembro de 2012

Talvez o amor, neste tempo, seja ainda cedo

Talvez o amor, neste tempo, seja ainda cedo


Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo


"Poema de despedida",
In "Raiz de orvalho e outros poemas"

 

 

Nas margens do Rio Eo num dia de verão nas Astúrias

Agosto de 2012
Jorge Soares

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Terça-feira, 3 de Julho de 2012

Chegar

Chegar

 

 

Poema Transitório

(...) é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir é preciso chegar... Ah, como esta vida é urgente!

... no entanto
eu gostava mesmo era de partir...
e - até hoje - quando acaso embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu lugar
fecho os olhos e sonho:
viajar, viajar
mas para parte nenhuma...
viajar indefinidamente...
como uma nave espacial perdida entre as estrelas.

 

Mario Quintana 

 

 

 

Setúbal, Maio de 2012

Jorge Soares


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Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011

À espera

À espera

 

Aqui onde se espera 
- Sossego, só sossego - 
Isso que outrora era, 

Aqui onde, dormindo, 
-Sossego, só sossego- 
Se sente a noite vindo, 

E nada importaria 
-Sossego, só sossego- 
Que fosse antes o dia, 

Aqui, aqui estarei 
-Sossego, só sossego - 
Como no exílio um rei, 

Gozando da ventura 
- Sossego, só sossego - 
De não ter a amargura 

De reinar, mas guardando 
- Sossego, só sossego - 
O nome venerando... 

Que mais quer quem descansa 
- Sossego, só sossego - 
Da dor e da esperança, 

Que ter a negação 
- Sossego, só sossego - 
De todo o coração ? 

Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'

 

Saímos no Underground apressados, nós e uma enorme multidão com pressa de chegar a tempo de ver o render da guarda, junto ao caminho nos enormes relvados do parque estavam estas cadeiras... dezenas delas... todas vazias.. à espera.

 

Green Park, Londres

Agosto de 2011

Jorge Soares


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Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011

Como um vaso vazio

Flor amarela

 

A minha alma partiu-se como um vaso vazio. 
Caiu pela escada excessivamente abaixo. 
Caiu das mãos da criada descuidada. 
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso. 

Asneira? Impossível? Sei lá! 
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu. 
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir. 

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. 
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada. 
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim. 

Não se zanguem com ela. 
São tolerantes com ela. 
O que era eu um vaso vazio? 

Olham os cacos absurdamente conscientes, 
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles. 

Olham e sorriem. 
Sorriem tolerantes à criada involuntária. 

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas. 
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros. 
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida? 
Um caco. 
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

 

Álvaro de Campos, in "Poemas"

 

Setúbal, Maio de 2010

Jorge Soares


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Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

Nuvens correndo um rio

Nuvens correndo um rio

 

Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.

Natália Correia

 

Nuvens sobre o Tejo

Lisboa, Novembro de 2010

Jorge Soares

 

21 de Nov de 2010, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 200, Exp.: 1/640 seg., Abertura: 10.0, Ext.: 26mm


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Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

Fernando Pessoa - Margarida

Margarida

 

Ai, Margarida,

Se eu te desse a minha vida,

Que farias tu com ela?

– Casava com um homem cego

E ia morar para a Estrela.


Mas, Margarida,

Se eu te desse a minha vida,

Que diria a tua mãe?

– (Ela conhece-me a fundo.)

Que há muito parvo no mundo,

E que eras parvo também.


E, Margarida,

Se eu te desse a minha vida

No sentido de morrer?

– Eu iria ao teu enterro,

Mas achava que era um erro

Querer amar sem viver.


Mas, Margarida,

Se este dar-te a minha vida

Não fosse senão poesia?

– Então, filho, nada feito.

Fica tudo sem efeito.

Nesta casa não se fia.

 

Álvaro de campos

 

Fernando Pessoa morreu a 30 de Novembro de 1936, tal dia como hoje ..., alguém dizia que não só foi o melhor poeta Português, como foi os cinco melhores poetas portugueses de sempre...

 

Jorge Soares


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Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010

Regras de sensatez

Praia, Cabo Verde

 

 

"Nunca voltes ao lugar
onde já foste feliz
por muito que o coração diga
não faças o que ele diz
Nunca mais voltes à casa
onde ardes-te de paixão
só encontrarás erva rasa
por entre as lajes do chão
Nada do que por lá vires
será como no passado
não queiras reancender
um lume já apagado
São as regras da sensatez
vais sair a dizer que desta é de vez
Por grande a tentação
que te crie a saudade
não mates a recordação
que lembra a felicidade
Nunca voltes ao lugar
onde o arco - irís se pôs
só encontrarás a cinza
que dá na garganta nós.
São as regras da sensatez
vais sair a dizer que desta é de vez"

 

Rui Veloso

 

Ouvir aqui

Pôr do sol na cidade da Praia, Cabo Verde
Fevereiro de 2010
Jorge Soares

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Terça-feira, 19 de Outubro de 2010

Somos donos do nosso destino

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre

 

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,

E deseja o destino que deseja; 
Nem cumpre o que deseja, 
Nem deseja o que cumpre. 
Como as pedras na orla dos canteiros 
O Fado nos dispõe, e ali ficamos; 
Que a Sorte nos fez postos 
Onde houvemos de sê-lo. 
Não tenhamos melhor conhecimento 
Do que nos coube que de que nos coube. 
Cumpramos o que somos. 
Nada mais nos é dado. 

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

Somos o que vivemos...

 

Algures numa praia de Portugal

Outubro de 2010

Jorge Soares


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Segunda-feira, 4 de Outubro de 2010

Quando as crianças brincam

Pequenina.. alegria de viver

 

Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

 

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

 

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

 

Fernando Pessoa

 

Ponte de Lima

Agosto de 2010

Jorge Soares


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Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

Pequenina

Subir escadas

 

Eu bem sei que te chamam pequenina
E ténue como o véu solto na dança, 
Que és no juizo apenas a criança, 
Pouco mais, nos vestidos, que a menina... 

Que és o regato de água mansa e fina, 
A folhinha do til que se balança, 
O peito que em correndo logo cansa, 
A fronte que ao soffrer logo se inclina... 

Mas, filha, lá nos montes onde andei, 
Tanto me enchi de angústia e de receio 
Ouvindo do infinito os fundos ecos, 

Que não quero imperar nem já ser rei 
Senão tendo meus reinos em teu seio 
E súbditos, criança, em teus bonecos! 

Antero de Quental, in "Sonetos"

 

Ponte de Lima

Agosto de 2010

Jorge Soares


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Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

Aqueles que só sabem amar

Mulher passeia na praia de Albarquel

 

amo aqueles que só sabem amar
enfrentando a vida
porque passam pela loucura.
amo aqueles que buscam o sol
por entre o escuro
porque amam sós.
amo aqueles que abandonam o passado
enfrentando a vida
porque procuram soluções.
amo aqueles que percorrem o mundo
sempre em busca do amor
porque conhecem a dor.
amo aqueles que sonham no acordar
por entre frases soltas
porque seus olhos reflectem amar.
amo aqueles que só sabem viver no acordar.

 

(Poema de Ricardo Biquinha in Luz.de.Tecto)

 

 

Mulher passeia na praia de Albarquel

Setúbal

Junho de 2010

Jorge Soares


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Terça-feira, 29 de Junho de 2010

Tempo

 

 

Relógio de sol

 

Tempo — definição da angústia. 
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te 
Ao coração pulsátil dum poema! 
Era o devir eterno em harmonia. 
Mas foges das vogais, como a frescura 
Da tinta com que escrevo. 
Fica apenas a tua negra sombra: 
— O passado, 
Amargura maior, fotografada. 

Tempo... 
E não haver nada, 
Ninguém, 
Uma alma penada 
Que estrangule a ampulheta duma vez! 

Que realize o crime e a perfeição 
De cortar aquele fio movediço 
De areia 
Que nenhum tecelão 
É capaz de tecer na sua teia! 

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

 

 

Relógio de Sol em Setúbal

Abril de 2010

Jorge Soares


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Segunda-feira, 29 de Março de 2010

Tristeza

Solidão e tristeza

 

Tristeza

 

 

Falo-me em versos tristes,
Entrego-me a versos cheios
De névoa e de luar;
E esses meus versos tristes
São ténues, céleres veios
Que esse vago luar
Se deixa pratear.

Sou alma em tristes cantos,
Tão tristes como as águas
Que uma castelã vê
Perderem-se em recantos
Que ela em soslaio, de pé,
No seu castelo de prantos
Perenemente vê...
Assim as minhas mágoas não domo
Cantam-me não sei como
E eu canto-as não sei porquê.

 

Fernando Pessoa

 

Jorge Soares


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Quinta-feira, 18 de Março de 2010

....Não fales palavras vãs.

 

Não digas ....

 

Não digas onde acaba o dia.

Onde começa a noite.

Não fales palavras vãs.

As palavras do mundo.

Não digas onde começa a Terra,

Onde termina o céu.

Não digas até onde és tu.

Não digas desde onde é Deus.

Não fales palavras vãs.

Desfaz-te da vaidade triste de falar.

Pensa, completamente silencioso.

Até a glória de ficar silencioso,

Sem pensar.

 

Cecilia Meireles in Cânticos

 

Pôr do sol em Cabo Verde

Fevereiro de 2010

Jorge Soares

 


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Terça-feira, 9 de Março de 2010

Mulher da vida

Mulher da vida

 

 

 Mulher da Vida, minha Irmã.

 

De todos os tempos. 

De todos os povos. 

De todas as latitudes. 

Ela vem do fundo imemorial das idades e 

carrega a carga pesada dos mais 

torpes sinônimos, 

apelidos e apodos: 

Mulher da zona, 

Mulher da rua, 

Mulher perdida, 

Mulher à-toa.

 

Mulher da Vida, minha irmã.

 

Pisadas, espezinhadas, ameaçadas. 

Desprotegidas e exploradas. 

Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito. 

Necessárias fisiologicamente. 

Indestrutíveis. 

Sobreviventes. 

Possuídas e infamadas sempre por 

aqueles que um dia as lançaram na vida. 

Marcadas. Contaminadas, 

Escorchadas. Discriminadas.

 

Nenhum direito lhes assiste. 

Nenhum estatuto ou norma as protege. 

Sobrevivem como erva cativa dos caminhos, 

pisadas, maltratadas e renascidas.

 

Flor sombria, sementeira espinhal  

gerada nos viveiros da miséria, da 

pobreza e do abandono, 

enraizada em todos os quadrantes da Terra.

 

Um dia, numa cidade longínqua, essa  

mulher corria perseguida pelos homens que 

a tinham maculado. Aflita, ouvindo o  

tropel dos perseguidores e o sibilo das pedras, 

ela encontrou-se com a Justiça.

 

A Justiça estendeu sua destra poderosa e

lançou o repto milenar: 

“Aquele que estiver sem pecado 

atire a primeira pedra”.

 

As pedras caíram 

e os cobradores deram s costas.

 

O Justo falou então a palavra de eqüidade:

“Ninguém te condenou, mulher...  

nem eu te condeno”.

 

A Justiça pesou a falta pelo peso 

do sacrifício e este excedeu àquela. 

Vilipendiada, esmagada. 

Possuída e enxovalhada, 

ela é a muralha que há milênios detém 

as urgências brutais do homem para que  

na sociedade possam coexistir a inocência, 

a castidade e a virtude.

 

Na fragilidade de sua carne maculada 

esbarra a exigência impiedosa do macho.

 

Sem cobertura de leis 

e sem proteção legal,  

ela atravessa a vida ultrajada 

e imprescindível, pisoteada, explorada,  

nem a sociedade a dispensa 

nem lhe reconhece direitos 

nem lhe dá proteção. 

E quem já alcançou o ideal dessa mulher,

que um homem a tome pela mão,  

a levante, e diga: minha companheira.

 

Mulher da Vida, minha irmã.

 

No fim dos tempos. 

No dia da Grande Justiça 

do Grande Juiz. 

Serás remida e lavada 

de toda condenação.

 

E o juiz da Grande Justiça 

a vestirá de branco em 

novo batismo de purificação. 

Limpará as máculas de sua vida 

humilhada e sacrificada 

para que a Família Humana 

possa subsistir sempre, 

estrutura sólida e indestrurível 

da sociedade, 

de todos os povos, 

de todos os tempos.

 

Mulher da Vida, minha irmã.

 

Cora Coralina

 

Jorge Soares


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Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010

Poema do mar

O pôr do sol na praiinha, Cabo Verde

 

 

O drama do Mar,

O desassossego domar,

                   sempre

                   sempre

                   dentro de nós!

 

O Mar!

cercando

prendendo as nossa Ilhas!

Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,

Roncando nas areias das nossas praias,

Batendo a sua voz de encontro aos montes,

baloiçando os barquinhos de pau que vão Poe estas costas...

 

O Mar!

pondo rezas nos lábios,

deixando nos olhos dos que ficaram

a nostalgia resignada de países distantes

que chegam até nós nas estampas das ilustrações

nas fitas de cinema

e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros

quando desembarcam para ver a pobreza da terra!

 

O Mar!

a esperança na carta de longe

que talvez não chegue mais!

 

O Mar!

Saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados,

Histórias da baleia que uma vez virou canoa...

de bebedeiras, de rixas, de mulheres,

nos portos estrangeiros...

 

O Mar!

dentro de nós todos,

no canto da Morna,*

no corpo das raparigas morenas,

nas coxas ágeis das pretas,

no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente!

 

Este convite de toda a hora

que o Mar nos faz para a evasão!

Este desespero de querer partir

         e ter que ficar!

 

Jorge Barbosa

 

Pôr do Sol  visto desde o Hotel na Praiinha

Cidade da Praia, Santiago, Cabo Verde

Fevereiro de 2007

 


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Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

Barco negro

Gaivota nos destroços


 

De manhã, que medo, que me achasses feia!

Acordei, tremendo, deitada n'areia

Mas logo os teus olhos disseram que não,

E o sol penetrou no meu coração.

 

Vi depois, numa rocha, uma cruz,

E o teu barco negro dançava na luz

Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas

Dizem as velhas da praia, que não voltas:

 

São loucas! São loucas!

 

Eu sei, meu amor,

Que nem chegaste a partir,

Pois tudo, em meu redor,

Me diz qu'estás sempre comigo.

 

No vento que lança areia nos vidros;

Na água que canta, no fogo mortiço;

No calor do leito, nos bancos vazios;

Dentro do meu peito, estás sempre comigo.

 

David Mourão Ferreira

 

Atalaia, Seixal

Setembro de 2009

Jorge Soares

 

6 de Set de 2009, Câmara: SONY, DSLR-A350,ISO: 100,Exposição: 1/500 seg.,Abertura: 5.6,Extensão focal: 200mm


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Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010

Há amores assim

Há amores assim

Há amores assim

Que nunca têm início

Muito menos têm fim

Na esquina de uma rua

Ou num banco de jardim

Quando menos esperamos

Há amores assim

 

Não demores tanto assim

Enquanto espero o céu azul

Cai a chuva sobre mim

Não me importo com mais nada

Se és direito ou o avesso

Se tu fores o meu final

Eu serei o teu começo

 

Não vou ganhar

Nem perder

Nem me lamentar

Estou pronta a saltar

De cabeça contra o mar

 

Je t’aime je t’adore

Um amor nunca se escolhe

Mas sei que vais reparar em mim

Yo te quiero tanto

E converso com o meu santo

Eu rezo e até peço em latim

 

Há amores assim

Que nunca têm início

Muito menos têm fim

Na esquina de uma rua

Ou num banco de jardim

Quando menos esperamos

Há amores assim

 

Não vou medir

Nem julgar

Eu quero arriscar

Tenho encontro marcado

Sem tempo nem lugar

 

Je t’aime je t’adore

Um amor nunca se escolhe

Mas sei que vais reparar em mim

Yo te quiero tanto

E converso com o meu santo

Eu rezo e até peço em latim

 

Je t’aime je t’adore

Um amor nunca se escolhe

Mas sei que vais reparar em mim

Yo te quiero tanto

E converso com o meu santo

Eu rezo e até peço em latim

 

Não demores tanto assim

Enquanto espero o céu azul

Cai a chuva sobre mim

Não me importo com mais nada

Se és direito ou o avesso

Se tu fores o meu final

Eu serei o teu começo

 

Quando te encontrar sei que tudo se iluminará

Reconhecerei em ti meu amor, a minha eternidade

É que na verdade a saudade já me invade

Mesmo antes de te alcançar

É a sede que me mata

Ao sentir o rio abraçar o mar

 

Je t’aime je t'adore

Um amor nunca se escolhe

Mas sei que vais reparar em mim

Yo te quiero tanto

E converso com o meu santo

Eu rezo e até peço em latim

 

Sem lágrima caída

Sou dona da minha vida

Sem nada mais nada

De bem com a vida

 

Dona Maria

 

Praça do Rossio, Lisboa, Novembro de 2008

Jorge Soares

 

22 de Nov de 2008, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 400, Exposição: 1/500 seg., Abertura: 5.6, Extensão focal: 200mm


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Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

... rodeado de flores de malvaísco

Flor de Malvaisco 

Alice

Era uma mulher indómita.

Deambulava de dia ou de noite por Jovim.

Andava sem destino firmado ou definido.

Comia quando os pobres se cansavam de a ver beber.

Vestia a roupa sem olhar o lado ou o tempo.

Saía igual com a virtude ou com a perversidade.

Encontrava-se muitas vezes com destinos trágicos

e engravidava frequentemente deles.

Sofria dores nunca contadas

ouvidas em gritos que rasgavam noites de bréu.

Perdera tudo.

Os pais que a tinham semeado.

O homem que a fizera flor.

Os filhos que gerara e não criava.

Desapareceu ela e a bebida que calava debaixo da saia

num dia frio de Dezembro.

Não a procuraram.

Os cães encontraram-na, num dia de Primavera

nos limites de Jovim

no fundo de um poço

rodeado de flores de malvaísco.

 

 

P.M.

 

Poema retirado do blog Abrigo de ventos

 

Flor de Malvaisco

Oliva, Valência, Espanha, Agosto de 2009

Jorge Soares

 

22 de Ago de 2009, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 100, Exposição: 1/500 seg., Abertura: 5.6 Extensão focal: 100mm


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Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Eu me ausento de ti ....

Setúbal

 

Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado, 
Mansa corrente deleitos, amena, 
Em cuja praia o nome de Filena 
Mil vezes tenho escrito, e mil beijado: 

Nunca mais me verás entre o meu gado 
Soprando a namorada e branda avena, 
A cujo som descias mais serena, 
Mais vagarosa para o mar salgado: 

Devo enfim manejar por lei da sorte 
Cajados não, mortíferos alfanges 
Nos campos do colérico Mavorte; 

E talvez entre impávidas falanges 
Testemunhas farei da minha morte 
Remotas margens, que humedece o Ganjes. 

Bocage, in 'Rimas' 

 

Setúbal, MArço de 2009

 

Jorge Soares

Mar 22, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 200, Exposição: 1/15 seg., Abertura: 11.0, Extensão focal: 150mm


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Terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Ao desconcerto do Mundo

Torre de vigia, Castelo do queijo, Porto 

Ao desconcerto do Mundo


Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
Anda o Mundo concertado.

Luís de Camões

Castelo do queijo
Porto, Agosto de 2009

Jorge Soares
Aug 3, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 100, Exposição: 1/125 seg., Abertura: 13.0, Extensão focal: 30mm

 


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Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

A esperança que pouco alcança!

Esperança 

O Andaime

 

O tempo que eu hei sonhado 
Quantos anos foi de vida! 
Ah, quanto do meu passado 
Foi só a vida mentida 
De um futuro imaginado! 

Aqui à beira do rio 
Sossego sem ter razão. 
Este seu correr vazio 
Figura, anônimo e frio, 
A vida vivida em vão. 

A ‘sp’rança que pouco alcança! 
Que desejo vale o ensejo? 
E uma bola de criança 
Sobre mais que minha ‘s’prança, 
Rola mais que o meu desejo. 

Ondas do rio, tão leves 
Que não sois ondas sequer, 
Horas, dias, anos, breves 
Passam — verduras ou neves 
Que o mesmo sol faz morrer. 

Gastei tudo que não tinha. 
Sou mais velho do que sou. 
A ilusão, que me mantinha, 
Só no palco era rainha: 
Despiu-se, e o reino acabou. 

Leve som das águas lentas, 
Gulosas da margem ida, 
Que lembranças sonolentas 
De esperanças nevoentas! 
Que sonhos o sonho e a vida! 

Que fiz de mim? Encontrei-me 
Quando estava já perdido. 
Impaciente deixei-me 
Como a um louco que teime 
No que lhe foi desmentido. 

Som morto das águas mansas 
Que correm por ter que ser, 
Leva não só lembranças — 
Mortas, porque hão de morrer. 

Sou já o morto futuro. 
Só um sonho me liga a mim — 
O sonho atrasado e obscuro 
Do que eu devera ser — muro 
Do meu deserto jardim. 

Ondas passadas, levai-me 
Para o alvido do mar! 
Ao que não serei legai-me, 
Que cerquei com um andaime 
A casa por fabricar. 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

 

Troia, Setúbal

Junho de 2009

Jorge Soares

 

Jun 14, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 100, Exposição: 1/800 seg., Abertura: 5.6, Extensão focal: 200mm


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Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

As borboletas

Borboleta

 

 

Brancas

Azuis

Amarelas

E pretas

Brincam

Na luz

As belas

Borboletas

 

Borboletas brancas

São alegres e francas.

 

Borboletas azuis

Gostam muito de luz.

 

As amarelinhas

São tão bonitinhas!

 

E as pretas, então…

Oh, que escuridão!

  

 

Vinícius de Moraes

 

Gosto de sair de casa com a máquina na mão, dou a volta ao bairro, desço as escadas por um lado, subo pelo outro, por entre os patios e canteiros das velhas casas há sempre agradáveis supresas, mesmo que sejam borboletas do Outono em roseiras secas.

 

Setúbal, Outubro de 2009

 

Jorge Soares

 

Oct 27, 2009, Câmara: SONY , Modelo: DSLR-A350, ISO: 100, Exposição: 1/1000 seg., Abertura: 5.6, Extensão focal: 200mm

 

 


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Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Quando, Lídia, vier o nosso outono ...

Outono 

Quando, Lídia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
nem para o estio,de quem somos mortos,
senão para o que fica do que passa,
o amarelo atual que as folhas vivem
E as torna diferentes.

 

Ricardo Reis

 

Fim de tarde de Outono em Sintra.

Outubro de 2009

Jorge Soares

 

 

Oct 16, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 400, Exposição: 1/60 seg., Abertura: 5.6, Extensão focal: 200mm


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Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

A Abelha

A abelha na flor amarela

 

 

A abelha que, voando, freme sobre

A colorida flor, e pousa, quase

Sem diferença dela

À vista que não olha, 

 

 

Não mudou desde Cecrops. Só quem vive

Uma vida com ser que se conhece

Envelhece, distinto

Da espécie de que vive. 

 

 

Ela é a mesma que outra que não ela.

Só nós - ó tempo, ó alma, ó vida, ó morte! -

Mortalmente compramos

Ter mais vida que a vida.  

 

Fernando Pessoa

 

Setúbal, Abril de 2009

Jorge Soares

 

Apr 19, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 100, Exposição: 1/1250 seg., Abertura: 5.6, Extensão focal: 160mm


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Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Identidade

Quinta da regaleira, o poço 

Identidade

 

Preciso ser um outro 
para ser eu mesmo 

Sou grão de rocha 
Sou o vento que a desgasta 

Sou pólen sem insecto 

Sou areia sustentando 
o sexo das árvores 

Existo onde me desconheço 
aguardando pelo meu passado 
ansiando a esperança do futuro 

No mundo que combato morro 
no mundo por que luto nasço 

 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

 

Quinta da Regaleira

Sintra, Outubro de 2009

Jorge Soares

 

Oct 5, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 400, Exposição: 1/10 seg., Abertura: 3.5, Extensão focal: 18mm, Flash utilizado: Não


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Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Trova do vento que passa

Pergunto ao vento que passa

 

Pergunto ao vento que passa

notícias do meu país

e o vento cala a desgraça

o vento nada me diz.

 

Pergunto aos rios que levam

tanto sonho à flor das águas

e os rios não me sossegam

levam sonhos deixam mágoas.

 

Levam sonhos deixam mágoas

ai rios do meu país

minha pátria à flor das águas

para onde vais? Ninguém diz.

 

Se o verde trevo desfolhas

pede notícias e diz

ao trevo de quatro folhas

que morro por meu país.

 

Pergunto à gente que passa

por que vai de olhos no chão.

Silêncio -- é tudo o que tem

quem vive na servidão.

 

Vi florir os verdes ramos

direitos e ao céu voltados.

E a quem gosta de ter amos

vi sempre os ombros curvados.

 

E o vento não me diz nada

ninguém diz nada de novo.

Vi minha pátria pregada

nos braços em cruz do povo.

 

Vi minha pátria na margem

dos rios que vão pró mar

como quem ama a viagem

mas tem sempre de ficar.

 

Vi navios a partir

(minha pátria à flor das águas)

vi minha pátria florir

(verdes folhas verdes mágoas).

 

Há quem te queira ignorada

e fale pátria em teu nome.

Eu vi-te crucificada

nos braços negros da fome.

 

E o vento não me diz nada

só o silêncio persiste.

Vi minha pátria parada

à beira de um rio triste.

 

Ninguém diz nada de novo

se notícias vou pedindo

nas mãos vazias do povo

vi minha pátria florindo.

 

E a noite cresce por dentro

dos homens do meu país.

Peço notícias ao vento

e o vento nada me diz.

 

Mas há sempre uma candeia

dentro da própria desgraça

há sempre alguém que semeia

canções no vento que passa.

 

Mesmo na noite mais triste

em tempo de servidão

há sempre alguém que resiste

há sempre alguém que diz não.

 

Manuel Alegre

 

Pescador à beira Sado

Setúbal, Setembro de 2009

Jorge Soares

 

Máquina SONY DSLR-A350, Exposição 1/500, Abertura f/8, ISO 100, MeteringMode Pattern, Dist.Focal 200 mm


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