Domingo, 9 de Agosto de 2015

Que o mais simples Fosse visto como o mais importante..

 

 

Quem me dera
ao menos uma vez
Que o mais simples
Fosse visto como o mais importante...

Renato Russo

 

Algures nas Asturias

Agosto de 2014

Jorge Soares

 


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Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

Com uma desconhecida, que amo e que me ama

Primavera casta


Tenho às vezes um sonho estranho e penetrante
Com uma desconhecida, que amo e que me ama
E que, de cada vez, nunca é bem a mesma
Nem é bem qualquer outra, e me ama e compreende.

Porque me entende, e o meu coração, transparente
Só pra ela, ah!, deixa de ser um problema
Só pra ela, e os suores da minha testa pálida,
Só ela, quando chora, sabe refrescá-los.

Será morena, loira ou ruiva? — Ainda ignoro.
O seu nome? Recordo que é suave e sonoro
Como esses dos amantes que a vida exilou.

O olhar é semelhante ao olhar das estátuas
E quanto à voz, distante e calma e grave, guarda
Inflexões de outras vozes que o tempo calou.

Paul Verlaine, in "Melancolia"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

 

Mértola, Março de 2013

Jorge Soares


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Sexta-feira, 22 de Março de 2013

Dois amantes ditosos

Aves

 

Dois amantes ditosos fazem um só pão,
uma só gota de lua na erva,
deixam andando duas sombras que se reúnem,
deixam um só sol vazio numa cama...

De todas as verdades escolheram o dia....
não se ataram com fios senão com um aroma,
e não despedaçaram a paz nem as palavras...
A ventura é uma torre transparente...
O ar, o vinho vão com os dois amantes,
a noite lhes oferta suas ditosas pétalas,
têm direito a todos os cravos...

Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem...
têm da natureza a eternidade...

 

Pablo Neruda


Com um cheirinho a Primavera... ou, ainda os pardais

Setúbal, Março de 2013

Jorge Soares

 


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Sábado, 16 de Março de 2013

Envolto nos temporais

Dias de Tempestade

 

 

Quando cedo me levanto
Envolto nos temporais
Invade-me o desencanto
Não posso sair do cais

Eu gosto de navegar
Nas calmas aguas da Ria 
Impedido de ir pró mar
É aqui que passo o dia

Por aqui vou navegando
Só Deus sabe até quando
Remando na solidão

Em saudade que não esquece
Aos ceus rezando uma prece
Contida em minha oração

16MAR13
João Severino


Setúbal, Maio de 2012

Jorge Soares


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Quarta-feira, 13 de Março de 2013

Charneca em Flor

Charneca em Flor


Charneca em Flor

 

Enche o meu peito, num encanto mago, 
O frêmito das coisas dolorosas... 
Sob as urzes queimadas nascem rosas... 
Nos meus olhos as lágrimas apago... 

Anseio! Asas abertas! O que trago 
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas 
Murmurar-me as palavras misteriosas 
Que perturbam meu ser como um afago! 

E nesta febre ansiosa que me invade, 
Dispo a minha mortalha, o meu burel, 
E, já não sou, Amor, Sóror Saudade... 

Olhos a arder em êxtases de amor, 
Boca a saber a sol, a fruto, a mel: 
Sou a charneca rude a abrir em flor! 

Florbela Espanca


Algures no sopé da Arrábida num dia de Primavera

Junho de 2012

Jorge Soares


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Segunda-feira, 11 de Março de 2013

Quando Vier a Primavera

quando vier a Primavera



Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim. 

Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma 

Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo. 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é. 


(Poemas Inconjuntos, heterónimo de Fernando Pessoa)

Alberto Caeiro


Apesar da muita chuva e do tempo frio, o sopé da arrábida vai-se enchendo de cor com o aparecimento das primeiras flores silvestres.

Setúbal, Fevereiro de 2013

Jorge Soares


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Sábado, 9 de Março de 2013

O que todos os pais pensam

Eu não acredito em deus

O que todos os pais pensam

 

não acredito em deus

eu dizia nas solidões

não acredito em nada

 

as pedras ainda são as pedras entretanto

o céu ainda empurra nuvem depois de nuvem

chove e nos janeiros é ruim dormir porque o calor tem asas de mosquito

deus não está me observando e nem vai me punir porque não acredito

 

as lágrimas ainda lavam as mais belas bochechas

assim como lavam também as faces feias

os rostos dos condenados a passar anos na cadeia

as mãos despretensiosas dos trabalhadores indonésios

os lenços de papel burgueses

eu choro por uma porção de razões minhas

lágrimas amigas choram seus motivos (às vezes eu sou o motivo)

deus não faz nada para enxugá-las

deus não sabe nada sobre as alegrias e as tristezas

deus não sabe nada sobre o meu menino

 

meu menino vai ter suas cantoras preferidas e vai se apaixonar por elas e pelas mulheres que as canções de suas cantoras o lembrarem

vai chorar desesperado algumas vezes na vida e eu não vou poder fazer muita coisa

além de dizer que isso passa e que as garotas sempre nos fazem chorar

e que nem é bom ouvir certas canções em certas datas

mas que elas nos fazem muito bem também

e que quando elas estiverem tristes vai ser bom poderem contar com ele

porque ele será um bom rapaz

não só um belo homem mas um bom rapaz

 

(considerando que ele vá gostar de garotas

se ele gostar de rapazes as coisas não serão muito diferentes)

 

mas 

antes disso

meu menino vai ter de aprender a andar

e é muito bonito ver o esforço dos primeiros passos

e as suas gargalhadas pelas menores coisas de seu pequeno universo

(as coisas abstratas ele só vai entender 

quando já houver chorado por coisas abstratas)

 

deus não sabe que meu menino ainda não sabe andar

deus não sabe que meu menino tem muita sorte e muitos amores e uns quantos pares de olhos e mãos e pés para cuidar dele bem melhor que eu

e ainda que tudo corra bem

todos vão pensar ter feito algo errado

 

desconsiderando deus

todos os pais pensam

 

V.

Retirado de Samizdat 

 

Setúbal, Fevereiro de 2013

Jorge Soares


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Quinta-feira, 7 de Março de 2013

Sinto no murmurar das águas

rio

 

Sinto no murmurar das águas 
deste rio da minha vida, 
onde navegávamos na mansidão do luar
e rejubilávamos na alegria da juventude,
as melodias da felicidade,
acariciadas pela brisa daquele tempo, 
de palmeiras verdes de esperança,
onde as brumas da incerteza não existiam!

E agora, contemplando o caudal deste rio
ressequido por este tempo que se faz presente
sufoco o choro de lágrimas da nostalgia,
que me aperta o peito, na dor feita saudade!
E aqui estou, sentado, nas areias que margeiam
este rio cansado, pelas mágoas do seu percurso,
esperando nova brisa que me sopre forças,
para continuar a navegar neste leito seco
e chegar ao remanso da minha tranquilidade!

Anseio por novos rios, num tempo
que se faça fértil e de águas calmas,
navegue por entre campos floridos,
ao som melodioso dos chilreios
de aves encantadas, 
de cores garridas da paixão,
ao encontro de um novo viver.

José Carlos Moutinho

 

Algures nas Astúrias

Agosto de 2011

Jorge Soares


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Quarta-feira, 6 de Março de 2013

Que vai de céu em céu, De mar em mar

O sol

 

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar…

 

Miguel Torga, in ‘Diário XII’

 

E de repente entrou-me a sodade.

Por do sol na Praiinha

Cabo Verde, Fevereiro de 2010

Jorge Soares


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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2013

Não há ninguém somente o inverno

Inverno

 

Não falta ninguém no jardim.

Não há ninguém:
somente o inverno verde e negro, o dia
desvelado como uma aparição,
fantasma branco, de fria vestimenta,
pelas escadas dum castelo. É hora
de não chegar ninguém, apenas caem
as gotas que vão espalhando o rocio
nestes ramos desnudos pelo inverno
e eu e tu nesta zona solitária,
invencíveis, sozinhos, esperando
que ninguém chegue, não, que ninguém venha
com sorriso ou medalha ou predisposto
a propor-nos nada.


Pablo Neruda

 

Setúbal, Fevereiro de 2013

Jorge Soares


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Sábado, 9 de Fevereiro de 2013

Calmaria

Imagens do Sado

 

A espantosa realidade das coisas 
É a minha descoberta de todos os dias. 
Cada coisa é o que é, 
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra, 
E quanto isso me basta. 

Basta existir para se ser completo. 

Tenho escrito bastantes poemas. 
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente. 

Cada poema meu diz isto, 
E todos os meus poemas são diferentes, 
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto. 

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra. 
Não me ponho a pensar se ela sente. 
Não me perco a chamar-lhe minha irmã. 
Mas gosto dela por ela ser uma pedra, 
Gosto dela porque ela não sente nada. 
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo. 

Outras vezes oiço passar o vento, 
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido. 

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto; 
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo, 
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar; 
Porque o penso sem pensamentos 
Porque o digo como as minhas palavras o dizem. 

Uma vez chamaram-me poeta materialista, 
E eu admirei-me, porque não julgava 
Que se me pudesse chamar qualquer coisa. 
Eu nem sequer sou poeta: vejo. 
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho: 
O valor está ali, nos meus versos. 
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade. 


Fernando Pessoa


Vistas do rio Sado

Setyúbal, Janeiro de 2012

Jorge Soares


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Sábado, 2 de Fevereiro de 2013

Barcos

Barcos

 

BARCOS


"Nha terra é quel piquinino
É São Vicente é que di meu"

 

Nas praias
Da minha infância
Morrem barcos
Desmantelados.

 

Fantasmas
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.

 

E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos...
Canto e sorrio...
A embarcação
Para o mar!
É para o mar!...

 

E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu...

 

Yolanda Marazzo

 

Tarrafal, Cabo Verde

Novembro de 2012

Jorge Soares


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Sábado, 19 de Janeiro de 2013

Abril Murchou

Abril murchou

 

Abril Murchou

 

 

Quando os sonhos já não te acordam a sorrir
Que luas te anoitecem, que nuvens te escurecem,
Que ventos e que chuvas ainda estão para vir?...
Muitos dias passaram depois do adeus,
Em que vila morena é que o povo ordena,
Quem ficou a sonhar os sonhos que eram teus?

 

Não sentes uma dor fechada, por ter ficado inacabada
A planta onde surgia um lugar melhor?
Passaram-se anos numa espera, de que valeu essa quimera,
Se a mesma lenga-lenga se vai ouvir de cor?

 

E quando te dás conta já tudo caiu,
Que luta continua, que morte sai á rua,
E em que primeiro dia o Maio amadurece Abril?
E se uns impérios caem que outros vão surgir,
“Que trovas vão avante?”, pergunto ao vento errante,
Se mudam os tempos a vontade é de fugir...

 

Não sentes uma dor fechada, por ter ficado inacabada
A planta onde surgia um lugar melhor?
Passaram-se anos numa espera, de que valeu essa quimera,
Se a mesma lenga-lenga se vai ouvir de cor?

 

 

Miguel Calhaz

 

 

 

 

 

 

 

Uma papoila colhida algures na berma de uma estrada

Setúbal, Março de 2012

Jorge Soares


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Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2013

Canção de Outono

Folhas caídas

 

Canção de Outono

 

Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão, 
se havia gente dormindo 
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles 
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono 
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...


Cecília Meireles


Setúbal, Dezembro de 2012

Jorge Soares


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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013

despida

Despido

 

Uma árvore despida
Perdida num recanto
De um paraíso perdido
Num mundo por inventar
Num mundo por colorir!

Seus braços parados
Sem força para balancear
Seus frutos há muito que
Partiram e a deixaram na
Solidão do ser, do querer.

O seu troco hirto
Mantém de pé um sonho
Perdido, há muito esquecido
Nos ramos sofridos,
Pela solidão da dor…
Uma árvore morre ..
Sempre de pé! !!!


Tulipa

Retirado de Jardins proibidos 

 

Uma velha árvore nas suas ropuagens de inverno

Sortelha, Sabugal

Dezembro de 2012

Jorge Soares


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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2013

Recantos

 

 

 

Quando eu fugir, na ponta duma lança,
Deste albergue noturno, em que me vês.
Não sei que sonho vão, nem que esperança
Vaga de abrir os olhos outra vez..
 
Porque a esperança doce, de criança,
D’inda os poder abrir na placidez
Duma nuança mansa que não cansa,
Lá, para além dos astros, lá, talvez?
 
Há de ser ao cair do sol. Ereto,
Tal como sou, rudíssimo de aspecto,
Mas tão humilde, e teu, e se te apraz,
 
Eu te verei entrar, suave sono,
Nesse veludos pálidos de Outono,
Ó Beatitude! Angelitude! Paz!

 

David Emiliano Perneta



Sortelha, Sabugal

Dezembro de 2012

Jorge Soares


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Sábado, 12 de Janeiro de 2013

Sortelha - A porta

Sortelha

 

Verdade 

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

 

Carlos Drummond de Andrade

 

Sortelha, Sabugal

Dezembro de 2012

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 19:44
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Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2013

Este é o Inverno

Suave

 

Este é o inverno

Um frio de leve
vem pra ficar.
A brisa suave
faz a árvore balançar.
O vento sopra
assobiando.
O céu escuro 
vai ficando.
As nuvens passam
de mansinho.
A chuva chega 
devagarinho.
As pessoas correm
abrindo guarda-chuvas.
Vi um homem de casaco
e uma mulher de luvas.
É esse o inverno
sorrateiro.
Vem chegando
e nem avisa primeiro.

 

Clarice Pacheco


Setúbal, Dezembro de 2012

Jorge Soares


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Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2013

A ver o mundo

A olhar para o mundo

 

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…
Alberto Caeiro, em “O Guardador de Rebanhos”

 

Sotelha, Sabugal

Dezembro de 2012

Jorge Soares


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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2013

Mocidade

Mocidade

Mocidade

A mocidade esplêndida, vibrante,
Ardente, extraordinária, audaciosa.
Que vê num cardo a folha duma rosa,
Na gota de água o brilho dum diamante;
Essa que fez de mim Judeu Errante
Do espírito, a torrente caudalosa,
Dos vendavais irmã tempestuosa,
- Trago-a em mim vermelha, triunfante!
No meu sangue rubis correm dispersos:
- Chamas subindo ao alto nos meus versos,
Papoilas nos meus lábios a florir!
Ama-me doida, estonteadoramente,
O meu Amor! que o coração da gente
É tão pequeno... e a vida, água a fugir...
                                       Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

Nas margens do Rio Caima
Palmaz,Oliveira de Azemeis
Dezembro de 2012
Jorge Soares

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Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2013

Chegamos? Não chegamos?

Pescadores em Cabo Verde



Pelo sonho é que vamos,

comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,

pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.

Basta a esperança naquilo

que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,

com a mesma alegria,

ao que desconhecemos

e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama (1924-1952)


Pescadores da Cidade Velha

Cabo Verde

Fevereiro de 2010

Jorge Soares


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... como no Alentejo o branco obstinado

Alentejo

 

Agonia
dos lentos inquietos 
 amarelos, 
 a solidão do vermelho 
sufocado, 
por fim o negro, 
fundo espesso, 
como no Alentejo 
o branco obstinado.

Eugénio de Andrade

 

Evoramonte, Alentejo

Março de 2012

Jorge Soares


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Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2013

Um dia

 

 Um dia


Um dia gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.



O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.



Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.



Shofia de Mello Breyner Andresen



Junto ao Castelo uma árvore iluminada
Sabugal
Dezembro de 2012

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Terça-feira, 1 de Janeiro de 2013

A arte de ser feliz

Árvore

 

A arte de ser feliz


Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

 

Cecília Meireles


Sortelha, Sabugal 

Dezembro de 2012

Jorge Soares


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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2012

sem leme, sem vela, sem brisa...

Fantasmas

 

Fantasma


Para onde vais, assim calado,
de olhos hirtos, quieto e deitado,
as mãos imóveis de cada lado?

Tua longa barca desliza
por não sei que onda, límpida e lisa,
sem leme, sem vela, sem brisa...

Passas por mim na órbita imensa
de uma secreta indiferença,
que qualquer pergunta dispensa.

Desapareces do lado oposto
e, então, com súbito desgosto,
vejo que teu rosto é o meu rosto,

e que vais levando contigo,
pelo silêncioso perigo
dessa tua navegação,

minha voz na tua garganta,
e tanta cinza, tanta, tanta,
de mim, sobre o teu coração!

Cecília Meirelles


Sombras num dia de inverno

Portalegre, Dezembro de 2011

Jorge Soares



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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2012

na curvatura de teu braço a encontrar os céus.

A laurindinha

 

Brisa

 

Os teus olhos irônicos assaltam-me.

Ofereço-te flores

levo-te ao sol

afago-te as dores inúteis.

Encomendo-te a felicidade.

Abraço-te para definir o amor alheio a qualquer palavra inútil.

Durmo contigo numa noite escura

o teu coração se cala

abrindo janelas ao gesto  infindo.

Ensinas-me  que a vida é tecido raro

que é curta a distância entre o riso e o choro.

E o meu corpo,

um traço imprevisto

na curvatura de teu braço a encontrar os céus.

 

Rita Schultz 

 

Portalegre

Dezembro de 2011

Jorge Soares


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Terça-feira, 25 de Dezembro de 2012

A última pétala da última rosa

Uma pétala de rosa

 

hoje eu quero ouvir tuas palavras sobre luzes 
e sobre rosas.
quero ver teus olhos que me convidam a viajar pela magia do universo
não romperei o silêncio. 
não tocarei uma sinfonia. 
não abrirei a boca.
tu? tu nem ouvirás os meus passos.
mas a pétala da rosa ao cair pelos confins do infinito
resvalando no teu coração
ah, essa tu ouvirás!

Rita Schultz 


A última pétala da última rosa num dia de sol de Inverno

Setúbal, Dezembro de 2011

Jorge Soares


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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2012

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos

Cão

 

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova quando
chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de
grandes chuvas e das recordações da infância.
Preciso de um amigo para não enlouquecer, para contar o que vi de belo e triste
durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.
Deve gostar de ruas desertas, de poças d´água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. Preciso de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já tenho um amigo. 
Preciso de um amigo para parar de chorar. Para não viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que me chame de amigo, para que eu tenha a consciência de que ainda vivo"

Vinícius de Moraes



Setúbal, Janeiro de 2012

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 21:38
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Terça-feira, 11 de Dezembro de 2012

Do teu plácido e azul encanto,

Capela

 

Chove?... Nenhuma chuva cai...

 

Chove?... Nenhuma chuva cai...

Então onde é que eu sinto um dia

Em que o ruído da chuva atrai

A minha inútil agonia?

 

Onde é que chove, que eu o ouço?

Onde é que é triste, ó claro céu?

Eu quero sorrir-te, e não posso,

Ó céu azul, chamar-te meu...

 

E o escuro ruído da chuva

É constante em meu pensamento.

Meu ser é a invisível curva

Traçada pelo som do vento...

 

E eis que ante o sol e o azul do dia,

Como se a hora me estorvasse,

Eu sofro... E a luz e a sua alegria

Cai aos meus pés como um disfarce.

 

Ah, na minha alma sempre chove.

Há sempre escuro dentro em mim.

Se escuto, alguém dentro em mim ouve

A chuva, como a voz de um fim ...

 

Quando é que eu serei da tua cor,

Do teu plácido e azul encanto,

Ó claro dia exterior,

Ó céu mais útil que o meu pranto?

 

Fernando Pessoa

 

Algures nas Astúrias

Agosto de 2012

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 19:04
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Domingo, 9 de Dezembro de 2012

O vento da vida pôs-te ali

Folha

 

Tu eras também uma pequena folha 
que tremia no meu peito. 
O vento da vida pôs-te ali. 
A princípio não te vi: não soube 
que ias comigo, 
até que as tuas raízes 
atravessaram o meu peito, 
se uniram aos fios do meu sangue, 
falaram pela minha boca, 
floresceram comigo.


Pablo Neruda


Uma folha de plátano num banco de jardim

Setúbal, Outubro de 2012

Jorge Soares




publicado por Jorge Soares às 18:27
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