Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

Fernando Pessoa - Margarida

Margarida

 

Ai, Margarida,

Se eu te desse a minha vida,

Que farias tu com ela?

– Casava com um homem cego

E ia morar para a Estrela.


Mas, Margarida,

Se eu te desse a minha vida,

Que diria a tua mãe?

– (Ela conhece-me a fundo.)

Que há muito parvo no mundo,

E que eras parvo também.


E, Margarida,

Se eu te desse a minha vida

No sentido de morrer?

– Eu iria ao teu enterro,

Mas achava que era um erro

Querer amar sem viver.


Mas, Margarida,

Se este dar-te a minha vida

Não fosse senão poesia?

– Então, filho, nada feito.

Fica tudo sem efeito.

Nesta casa não se fia.

 

Álvaro de campos

 

Fernando Pessoa morreu a 30 de Novembro de 1936, tal dia como hoje ..., alguém dizia que não só foi o melhor poeta Português, como foi os cinco melhores poetas portugueses de sempre...

 

Jorge Soares


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Velhas árvores

Outono

 

Velhas Árvores

 

Olha estas velhas árvores, mais belas 
Do que as árvores novas, mais amigas: 
Tanto mais belas quanto mais antigas, 
Vencedoras da idade e das procelas... 

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas 
Vivem, livres de fomes e fadigas; 
E em seus galhos abrigam-se as cantigas 
E os amores das aves tagarelas. 

Não choremos, amigo, a mocidade! 
Envelheçamos rindo! envelheçamos 
Como as árvores fortes envelhecem: 

Na glória da alegria e da bondade, 
Agasalhando os pássaros nos ramos, 
Dando sombra e consolo aos que padecem! 

Olavo Bilac, in "Poesias"


 

Parece que o inverno veio para ficar... já tenho saudades do Outono.. do Outono de cores suaves e cálidas do Gerês.

 

Portela de Leonte

Novembro de 2010

Jorge Soares


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Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

Dois horizontes

Pôr do Sol em Cabo verde

 

Dois Horizontes

 

Um horizonte, — a saudade 
Do que não há de voltar; 
Outro horizonte, — a esperança 
Dos tempos que hão de chegar; 
No presente, — sempre escuro,— 
Vive a alma ambiciosa 
Na ilusão voluptuosa 
Do passado e do futuro. 

Os doces brincos da infância 
Sob as asas maternais, 
O vôo das andorinhas, 
A onda viva e os rosais; 
O gozo do amor, sonhado 
Num olhar profundo e ardente, 
Tal é na hora presente 
O horizonte do passado. 

Ou ambição de grandeza 
Que no espírito calou, 
Desejo de amor sincero 
Que o coração não gozou; 
Ou um viver calmo e puro 
À alma convalescente, 
Tal é na hora presente 
O horizonte do futuro. 

No breve correr dos dias 
Sob o azul do céu, — tais são 
Limites no mar da vida: 
Saudade ou aspiração; 
Ao nosso espírito ardente, 
Na avidez do bem sonhado, 
Nunca o presente é passado, 
Nunca o futuro é presente. 

Que cismas, homem? – Perdido 
No mar das recordações, 
Escuto um eco sentido 
Das passadas ilusões. 
Que buscas, homem? – Procuro, 
Através da imensidade, 
Ler a doce realidade 
Das ilusões do futuro. 

Dois horizontes fecham nossa vida.

 

(Machado de Assis, in "Crisálidas")

 

Pôr do sol em Cabo verde

Fevereiro de 2010

Jorge Soares


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Quinta-feira, 11 de Novembro de 2010

A vida pintada em tons dourados

Outono

 

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.


Miguel Torga

 

Outono no Jardim de Vanicelos

Setúbal, Outubro de 2010

Jorge Soares


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Terça-feira, 9 de Novembro de 2010

Faz-se o caminho ao andar

Caminhante não há caminhos, faz-se o caminho ao andar

 

Tudo passa e tudo fica 
porém o nosso é passar, 
passar fazendo caminhos 
caminhos sobre o mar 

Nunca persegui a glória 
nem deixar na memória 
dos homens minha canção 
eu amo os mundos sutis 
leves e gentis, 
como bolhas de sabão 

Gosto de ver-los pintar-se 
de sol e graná voar 
abaixo o céu azul, tremer 
subitamente e quebrar-se... 

Nunca persegui a glória 

Caminhante, são tuas pegadas 
o caminho e nada mais; 
caminhante, não há caminho, 
se faz caminho ao andar 

Ao andar se faz caminho 
e ao voltar a vista atrás 
se vê a senda que nunca 
se há de voltar a pisar 

Caminhante não há caminho 
senão há marcas no mar... 

Faz algum tempo neste lugar 
onde hoje os bosques se vestem de espinhos 
se ouviu a voz de um poeta gritar 
"Caminhante não há caminho, 
se faz caminho ao andar"... 

Golpe a golpe, verso a verso... 

Morreu o poeta longe do lar 
cobre-lhe o pó de um país vizinho. 
Ao afastar-se lhe vieram chorar 
"Caminhante não há caminho, 
se faz caminho ao andar..." 

Golpe a golpe, verso a verso... 

Quando o pintassilgo não pode cantar. 
Quando o poeta é um peregrino. 
Quando de nada nos serve rezar. 
"Caminhante não há caminho, 
se faz caminho ao andar..." 

Golpe a golpe, verso a verso.

 

António Machado

Poeta andaluz

 

Num dia de chuva no Parque nacional da Peneda Gerês, Gerês, Amares, Braga

Outubro de 2010

Jorge Soares

 

31 de Out de 2010, Câmara: SONY, DSLR-A350, ISO: 400, Exp.: 1/250 seg., Abertura: 5.6, Ext. focal: 18mm Flash: Não


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Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010

Vaga, no azul amplo solta, ....

 Vaga, no Azul Amplo Solta

 

Vaga, no Azul Amplo Solta

 

Vaga, no azul amplo solta, 
Vai uma nuvem errando. 
O meu passado não volta. 
Não é o que estou chorando. 

O que choro é diferente. 
Entra mais na alma da alma. 
Mas como, no céu sem gente, 
A nuvem flutua calma. 

E isto lembra uma tristeza 
E a lembrança é que entristece, 
Dou à saudade a riqueza 
De emoção que a hora tece. 

Mas, em verdade, o que chora 
Na minha amarga ansiedade 
Mais alto que a nuvem mora, 
Está para além da saudade. 

Não sei o que é nem consinto 
À alma que o saiba bem. 
Visto da dor com que minto 
Dor que a minha alma tem. 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

 

Setúbal, Outubro de 2010

Jorge Soares

 


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Quinta-feira, 4 de Novembro de 2010

O dia deu em Chuvoso

Recanto do Gerês, Mata de Albergaria

 

 

O Dia Deu em Chuvoso

 

O dia deu em chuvoso. 
A manhã, contudo, esteve bastante azul. 
O dia deu em chuvoso. 
Desde manhã eu estava um pouco triste. 

Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma? 
Não sei: já ao acordar estava triste. 
O dia deu em chuvoso. 

Bem sei, a penumbra da chuva é elegante. 
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante. 
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. 
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? 
Dêem-me o céu azul e o sol visível. 
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim. 

Hoje quero só sossego. 
Até amaria o lar, desde que o não tivesse. 
Chego a ter sono de vontade de ter sossego. 
Não exageremos! 
Tenho efetivamente sono, sem explicação. 
O dia deu em chuvoso. 

Carinhos? Afetos? São memórias... 
É preciso ser-se criança para os ter... 
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro! 
O dia deu em chuvoso. 

Boca bonita da filha do caseiro, 
Polpa de fruta de um coração por comer... 
Quando foi isso? Não sei... 
No azul da manhã... 

O dia deu em chuvoso. 

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

 


 

Mata de Albergaria, Parque nacional do Gerês, Gerês, Amares, Braga

Novembro de 2010

Jorge Soares


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Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010

Nevoeiro

Neblina no gerês

 

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

 

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

 

É a hora!

 

Fernando Pessoa

 

O dia acordou como os dois anteriores, farrusco e com chuva... as nuvens baixas cobriam a serra e tudo estava mais ou menos envolto na névoa. Decidi aproveitar a falta de luz e o excesso de branco no céu para experimentar uma funcionalidade da máquina... fotografia a preto e branco ....  acho que vou utilizar mais vezes... não saiu nada mal.

 

Parque natural da serra do Gerês, Gerês, Amares, Braga

Novembro de 2010

Jorge Soares


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Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010

O Outono

Outono

 

Uma lâmina de ar

Atravessando as portas. Um arco,

Uma flecha cravada no Outono. E a canção

Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.

E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como

Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.

É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza

Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.

Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se

Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.

Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede

Cumprimenta o sol. Procura-se viver.

Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.

Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se

Como se, de repente, não houvesse mais nada senão

A imperiosa ordem de (se) amarem.

Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.

Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos. Não há um nome para a tua ausência. Há um muro

Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho

Que a minha boca recusa.

É outono A pouco e pouco despem-se as palavras.

 

Joaquim Pessoa

 

Jardim de Vanicelos, Setúbal

Outubro de 2010

Jorge Soares


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Terça-feira, 26 de Outubro de 2010

A girafa e os palermas ...

A linguaruda do Zoo de Lisboa

 

 

Sonho de vida

 

Que a chuva seja um refresco
E o rio nunca transborde
Que os animais sejam mansos 
E os mortos do sono acorde.
Que o sol ilumine e não queime,
E o fogo seja só um clarão.
Que o mar não afogue ninguém.
E que as pessoas não se dividam em classes.
Que o amor seja sempre infinito
Que não exista religião 
E que o mundo se chame união.

 

Shana Junger

 

 

Mesmo ao lado havia um letreiro que dizia, "Por favor não dê comida aos animais".. mesmo ao lado das dezenas de pessoas, mães, pais, avós, tios, irmãos... que pegavam nas folhas que o Outono espalhava por ali e as davam às girafas que se esforçavam ao máximo por as agarrar por cima da cerca e do espaço que as separava da multidão. .. e assim se plantam os exemplos de futuro.

 

Girafas e palermas no Jardim Zoológico de Lisboa

Outubro de 2010

Jorge Soares


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Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010

A veia do poeta

A veia do poeta.. o voo das borboletas

 

 

Cansado do movimento
Que percorre a linha recta
Fui ficando mais atento 
Ao voo da borboleta 
Fui subindo em espiral 
Declarando-me estafeta
Entre o corpo do real 
E a veia do poeta

Mas ela não se detecta 
À vista desarmada
E o sangue que lá corre
Em torrente delicada 
É a lágrima perpétua
Sai da ponta da caneta
Vai ao fim da via láctea 
E cai no fundo da gaveta

Ai de quem nunca guardou
Um pouco da sua alma
Numa folha secreta
Ai de quem nunca guardou
Um pouco da sua alma
No fundo duma gaveta
Ai de quem nunca injectou
Um pouco da sua mágoa 
Na veia do poeta

 

Rui Veloso

 

 

Borboletas no jardim...

Setúbal, Outubro de 2008

Jorge Soares


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Terça-feira, 19 de Outubro de 2010

Somos donos do nosso destino

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre

 

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,

E deseja o destino que deseja; 
Nem cumpre o que deseja, 
Nem deseja o que cumpre. 
Como as pedras na orla dos canteiros 
O Fado nos dispõe, e ali ficamos; 
Que a Sorte nos fez postos 
Onde houvemos de sê-lo. 
Não tenhamos melhor conhecimento 
Do que nos coube que de que nos coube. 
Cumpramos o que somos. 
Nada mais nos é dado. 

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

Somos o que vivemos...

 

Algures numa praia de Portugal

Outubro de 2010

Jorge Soares


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Domingo, 17 de Outubro de 2010

Viver .. era isso, mais nada?

Viver.. por trás da porta

 

Viver

 

Mas era apenas isso, 
era isso, mais nada? 
Era só a batida 
numa porta fechada? 

E ninguém respondendo, 
nenhum gesto de abrir: 
era, sem fechadura, 
uma chave perdida? 

Isso, ou menos que isso 
uma noção de porta, 
o projecto de abri-la 
sem haver outro lado? 

O projecto de escuta 
à procura de som? 
O responder que oferta 
o dom de uma recusa? 

Como viver o mundo 
em termos de esperança? 
E que palavra é essa 
que a vida não alcança?

 

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'

 

A vida são muitas coisas, muitas escolhas, muitos caminhos cruzados, muitas oportunidades perdidas, muitas outras agarradas com ambas as mãos... mas no fim, tudo se resume a Somos o que vivemos.

 

Setúbal, Outubro de 2010

Jorge Soares


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Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

Livre

Cavalo alado

 

Livre não sou, que nem a própria vida 
Mo consente. 
Mas a minha aguerrida 
Teimosia 
É quebrar dia a dia 
Um grilhão da corrente. 

Livre não sou, mas quero a liberdade. 
Trago-a dentro de mim como um destino. 
E vão lá desdizer o sonho do menino 
Que se afogou e flutua 
Entre nenúfares de serenidade 
Depois de ter a lua! 

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

 

 

O cavalo ia em grande velocidade, e a luz do fim de tarde já era pouca... talvez o modo na máquina também não fosse o mais adequado... está tremida, eu sei... mas decidi que gosto na mesma...
Representação de o Casamento do Viriato pelos Fatias de Cá, Almourol, Vila Nova da Barquinha
Setembro de 2010
Jorge Soares

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Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

Pedra a pedra

No Castelo de Almourol

 

Pedra a pedra a estrada antiga 
sobe a colina, passa diante 
de musgosos muros e desce 
para nenhum sopé;

 

Do Poema Estrada de Fogo de Fiama Hasse Pais Brandão

 

Castelo de Almourol, Vila Nova da Barquinha,

Setembro de 2010

Jorge Soares


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Domingo, 12 de Setembro de 2010

Ser Criança

 

 

Ser criança

 

Ser criança

 

Ser criança

é ter esperança

 

É ter a alegria

de viver o mundo.

 

É ter uma chave

uma chave para o futuro.

É viver no mundo de imaginação.

É encarar o mundo,

é tê-los nas mãos.

 

É olhar o mundo

de maneira diferente.

É sonhar é viver ,

É ser diferente.

 

Raquel Soares

10 anos

Retirado de aqui

 

Praia do Carvalhal, Grândola, Setúbal

Julho de 2010

Jorge Soares


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Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010

Saudade

Quem vai abrir agora as janelas?

 

Quem vai abrir as janelas que não fechaste...? 
Quem vai colher as flores que não semeaste...? 
Quem vai guardar as cartas que nao recebeste...? 
Quem vai ler as palavras que não escreveste...? 
Quem vai sentar-se à mesa no teu lugar...? 
Quem, no teu leito desfeito, se vai deitar...? 
Quem, as tuas roupas usadas vai vestir...? 
Quem, os sons que tu ouvias, vai ouvir...? 
Quem, a porta vai abrir, para eu entrar...? 
Quem, com um terno beijo me vai saudar...? 
Quem vai ensinar-me agora...a compreender ? 
...Como posso eu viver feliz...sem te ter?

 

Poema de Maria João Silva

 

Ouvir o poema declamado no Youtube

 

 

Algures num daqueles dias de verão em que dá gosto caminhar pela praia, numa praia da galiza

Agosto de 2010

Jorge Soares


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Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010

Desencontro

Pesos

 

Só quem procura sabe como há dias 
de imensa paz deserta; pelas ruas 
a luz perpassa dividida em duas: 
a luz que pousa nas paredes frias, 
outra que oscila desenhando estrias 
nos corpos ascendentes como luas 
suspensas, vagas, deslizantes, nuas, 
alheias, recortadas e sombrias. 

E nada coexiste. Nenhum gesto 
a um gesto corresponde; olhar nenhum 
perfura a placidez, como de incesto, 

de procurar em vão; em vão desponta 
a solidão sem fim, sem nome algum - 
- que mesmo o que se encontra não se encontra. 

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'

 

Jorge Soares

Óbidos

Julho de 2010


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Quarta-feira, 23 de Junho de 2010

Meu São João

Balões na Baixa do Porto

 

 

Profundamente


Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?


— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.


Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci.


Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.


Manuel Bandeira

 

Porto, Junho de 2008

Jorge soares


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Terça-feira, 27 de Abril de 2010

Como uma criança antes de a ensinarem a ser grande

Criança que chora

 

Como uma criança antes de a ensinarem a ser grande, 
Fui verdadeiro e leal ao que vi e ouvi. 

Alberto Caeiro, in "Fragmentos"

 

Setúbal, Abril de 2010

Jorge Soares


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Quarta-feira, 31 de Março de 2010

A Mulher

 

Mulher - Florbela espanca

 

A mulher

 

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!
Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem 
Enquanto a boca rir alegremente!
Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!
Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

 

Florbela Espanca

 

Setúbal

Março de 2010

 

Jorge Soares


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Segunda-feira, 22 de Março de 2010

Desejo

Dente de leão...desejo

 

 

Não desejemos, Lídia, nesta hora

 

 Ténue, como se de Éolo a esquecessem, 

A brisa da manhã titila o campo, 
E há começo do sol. 
Não desejemos, Lídia, nesta hora 
Mais sol do que ela, nem mais alta brisa 
Que a que é pequena e existe. 

 

Ricardo Reis, In Odes

 

 

Carrigaline, Irlanda

Abril de 2009

Jorge Soares


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Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010

Intervalo

Pôr do sol na Praiinha, Cabo Verde

 

  Intervalo

 

Quem te disse ao ouvido esse segredo 

Que raras deusas têm escutado - 

Aquele amor cheio de crença e medo 

Que é verdadeiro só se é segredado?... 

Quem te disse tão cedo? 

 

Não fui eu, que te não ousei dizê-lo. 

Não foi um outro, porque não sabia. 

Mas quem roçou da testa teu cabelo 

E te disse ao ouvido o que sentia? 

Seria alguém, seria?

 

Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei? 

Foi só qualquer ciúme meu de ti 

Que o supôs dito, porque o não direi, 

Que o supôs feito, porque o só fingi 

Em sonhos que nem sei? 

 

Seja o que for, quem foi que levemente, 

A teu ouvido vagamente atento, 

Te falou desse amor em mim presente 

Mas que não passa do meu pensamento 

Que anseia e que não sente? 

 

Foi um desejo que, sem corpo ou boca, 

A teus ouvidos de eu sonhar-te disse 

A frase eterna, imerecida e louca - 

A que as deusas esperam da ledice 

Com que o Olimpo se apouca.  

 

Fernando Pessoa

In Cancioneiro

 

Pôr do Sol na Praiinha, Cidade da Praia, Cabo Verde

Fevereiro de 2010

Jorge Soares


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Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

Nada que sou me interessa

Nada do que sou me interessa

 

 Nada que sou me interessa

 

 

NADA QUE SOU me interessa. 

Se existe em meu coração 

Qualquer que tem pressa 

Terá pressa em vão.

Nada que sou me pertence. 

Se existo em que me conheço 

Qualquer cousa que me vence 

Depressa a esqueço.

 

Nada que sou eu serei. 

Sonho, e só existe em meu ser, 

Um sonho do que terei. 

Só que o não hei de ter.

 

Fernando Pessoa

 

Lisboa, Novembro de 2009

Jorge Soares

 

22 de Nov de 2008, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 400, Exposição: 1/80 seg., Abertura: 5.6, Extensão focal: 50mm, Flash: Sim

 


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Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Eu me ausento de ti ....

Setúbal

 

Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado, 
Mansa corrente deleitos, amena, 
Em cuja praia o nome de Filena 
Mil vezes tenho escrito, e mil beijado: 

Nunca mais me verás entre o meu gado 
Soprando a namorada e branda avena, 
A cujo som descias mais serena, 
Mais vagarosa para o mar salgado: 

Devo enfim manejar por lei da sorte 
Cajados não, mortíferos alfanges 
Nos campos do colérico Mavorte; 

E talvez entre impávidas falanges 
Testemunhas farei da minha morte 
Remotas margens, que humedece o Ganjes. 

Bocage, in 'Rimas' 

 

Setúbal, MArço de 2009

 

Jorge Soares

Mar 22, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 200, Exposição: 1/15 seg., Abertura: 11.0, Extensão focal: 150mm


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Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Quando estou só reconheço que existo entre outros que são como eu sós

Solidão 

 

 

Quando estou só reconheço

Se por momentos me esqueço

Que existo entre outros que são

Como eu sós, salvo que estão

Alheados desde o começo.

 

E se sinto quanto estou

Verdadeiramente só,

Sinto-me livre mas triste.

Vou livre para onde vou,

Mas onde vou nada existe.

 

Creio contudo que a vida

Devidamente entendida

É toda assim, toda assim.

Por isso passo por mim

Como por coisa esquecida.

 

9-8-1931

 

Fernando Pessoa

 
Praia do Bico das Lulas, Troia, Setúbal
Novembro de 2008
Jorge Soares
 
Nov 23, 2008, Câmara: SONY , Modelo: DSLR-A350, ISO: 100, Exposição: 1/400 seg., Abertura: 8.0, Extensão focal: 200mm

 


publicado por Jorge Soares às 08:50
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Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

O Pisco II

O pisco

 

 Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do Mundo?

Sei lá o que penso do Mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

 

 

 

Que ideia tenho eu das coisas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

 

 

 

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o Sol

E a pensar muitas coisas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o Sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do Sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.

 

 

Alberto Caeiro in O Guardadador de rebanhos

 

Gosto dos piscos, para além de um trinar melodioso, tem umas cores fantásticas e fotogénicas, passei muito tempo à espera que este decidisse aparecer em público.... lindo!

 

Alviães, Palmaz, Oliveira de Azemeis, Aveiro

Outubro de 2009

 

Jorge Soares

 

Oct 11, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 100, Exposição: 1/1000 seg., Abertura: 5.6, Extensão focal: 200mm


publicado por Jorge Soares às 08:00
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Terça-feira, 3 de Novembro de 2009

A vida é feita de coisas simples

A vida é feita de coisas simples...borboleta 

 

Vive, dizes, no presente, 

Vive só no presente.

 

Mas eu não quero o presente, quero a realidade; 

Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

 

Fernando Pessoa

 

 

Borboleta nas flores amarelas

Setúbal, Outubro de 2009

Jorge Soares


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Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Quando, Lídia, vier o nosso outono ...

Outono 

Quando, Lídia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
nem para o estio,de quem somos mortos,
senão para o que fica do que passa,
o amarelo atual que as folhas vivem
E as torna diferentes.

 

Ricardo Reis

 

Fim de tarde de Outono em Sintra.

Outubro de 2009

Jorge Soares

 

 

Oct 16, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 400, Exposição: 1/60 seg., Abertura: 5.6, Extensão focal: 200mm


publicado por Jorge Soares às 08:00
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Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Também gosto de coisas simples

Coisas simples

Coisas simples, a abelha e a espiga

Coisas simples e belas

A abelha e a espiga, a beleza da simplicidade

A bela e a espiga 

 

Aqui está-se sossegado,  
Longe do mundo e da vida,  
Cheio de não ter passado,  
Até o futuro se olvida.  
Aqui está-se sossegado. 

 

Fernando Pessoa

 

Ainda o quintal da minha mãe

Alviães, Oliveira de Azemeis, Abveiro

Outubro de 2009

Jorge Soares


publicado por Jorge Soares às 16:31
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