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Momentos e Olhares

A vida é feita de momentos, alguns são apagados, levados pelas ondas da vida, outros ficam, perduram na nossa memória e fazem de nós o que somos, olhares, vivências, recordações e saudade! -Jorge Soares

Momentos e Olhares

A vida é feita de momentos, alguns são apagados, levados pelas ondas da vida, outros ficam, perduram na nossa memória e fazem de nós o que somos, olhares, vivências, recordações e saudade! -Jorge Soares

Madrugada, o porto adormeceu

Amanhecer

 

memória da noite

 

Madrugada, o porto adormeceu, amor,

A lua ondula sobre as ondas

Piso espelhos antes de que saia o sol

Na noite guardei a tua memória.

 

Perderei outra vez a vida

Quando a luz romper nos costões,

Perderei o dia em que aprendi a beijar

Palabras dos teus olhos sobre o mar,

Perderei o dia em que aprendi a beijar

Palavras dos teus olhos sobre o mar.

 

Veio a manhã antes de vir o rumor,

Levou uma maré à sua sombra.

Barcos negros cruzam a manhã sem voz,

As redes vazias, sem gaivotas.

 

E dirão, contarão mentiras

Para oferecer-las ao patrão:

Vão querer fechar com algumas moedas, talvez,

Os teus olhos abertos sobre o mar,

Vão querer fechar com algumas moedas, talvez,

Os teus olhos abertos sobre o mar.

 

Madrugada, o porto despertou, amor,

O relógio do bar ficou parado

Na costeira muda da desolação

Não vamos esquecer nem perdoa-lo.

 

Voltarei, voltarei à vida

Quando a luz bater nos costões

Por que nós arrancamos todo o orgulho do mar,

Nós não afundaremos nunca mais

Que em sua memória nao haja mais volta:

Nao nos humilharemos NUNCA MAIS.

 

Xabier Cordal


Ouvir a versão cantada por:

 

Sara Vidal e Luar na Lubre

 

Demoro-me no outro lado de mim

Pensando a vida

 

Demoro-me no outro lado de mim
porque me atrai
esse ser impossível
que sou
esse ser que me nega
para que seja ainda eu
Porque desejo esse alguém
que me invade e me ocupa
que me usurpou a palavra e o gesto
me fez estrangeiro do meu corpo
e me deixou mudo, contemplando-me.
Lanço-me na procura da minha pedra
no infindável trabalho
de me reconstruir
recolhendo os sinais do meu desaparecimento
percorrendo o revés da viagem
para regressar a um lugar inabitável.
Todas as vezes que me venci
não me separei do meu sonho derrotado
e, assim, me fiz nuvem
reparti-me em infinitas gotas
para que fosse bebido, vertido, transpirado
e voltasse de novo a ser céu
transparência de azul, harmonia perfeita
e poder regressar ao lugar interior
para me deitar, de novo,
no sangue que me iniciou.

 

Mia Couto 

 

Parque Urbano de Albarquel

Setúbal, Setembro de 2012

Jorge Soares

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