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Momentos e Olhares

A vida é feita de momentos, alguns são apagados, levados pelas ondas da vida, outros ficam, perduram na nossa memória e fazem de nós o que somos, olhares, vivências, recordações e saudade! -Jorge Soares

Momentos e Olhares

A vida é feita de momentos, alguns são apagados, levados pelas ondas da vida, outros ficam, perduram na nossa memória e fazem de nós o que somos, olhares, vivências, recordações e saudade! -Jorge Soares

sem leme, sem vela, sem brisa...

Fantasmas

 

Fantasma


Para onde vais, assim calado,
de olhos hirtos, quieto e deitado,
as mãos imóveis de cada lado?

Tua longa barca desliza
por não sei que onda, límpida e lisa,
sem leme, sem vela, sem brisa...

Passas por mim na órbita imensa
de uma secreta indiferença,
que qualquer pergunta dispensa.

Desapareces do lado oposto
e, então, com súbito desgosto,
vejo que teu rosto é o meu rosto,

e que vais levando contigo,
pelo silêncioso perigo
dessa tua navegação,

minha voz na tua garganta,
e tanta cinza, tanta, tanta,
de mim, sobre o teu coração!

Cecília Meirelles


Sombras num dia de inverno

Portalegre, Dezembro de 2011

Jorge Soares


na curvatura de teu braço a encontrar os céus.

A laurindinha

 

Brisa

 

Os teus olhos irônicos assaltam-me.

Ofereço-te flores

levo-te ao sol

afago-te as dores inúteis.

Encomendo-te a felicidade.

Abraço-te para definir o amor alheio a qualquer palavra inútil.

Durmo contigo numa noite escura

o teu coração se cala

abrindo janelas ao gesto  infindo.

Ensinas-me  que a vida é tecido raro

que é curta a distância entre o riso e o choro.

E o meu corpo,

um traço imprevisto

na curvatura de teu braço a encontrar os céus.

 

Rita Schultz 

 

Portalegre

Dezembro de 2011

Jorge Soares

A última pétala da última rosa

Uma pétala de rosa

 

hoje eu quero ouvir tuas palavras sobre luzes 
e sobre rosas.
quero ver teus olhos que me convidam a viajar pela magia do universo
não romperei o silêncio. 
não tocarei uma sinfonia. 
não abrirei a boca.
tu? tu nem ouvirás os meus passos.
mas a pétala da rosa ao cair pelos confins do infinito
resvalando no teu coração
ah, essa tu ouvirás!

Rita Schultz 


A última pétala da última rosa num dia de sol de Inverno

Setúbal, Dezembro de 2011

Jorge Soares

É um presépio de lata

É um presépio de lata

 

Três estrelas de alumínio
A luzir num céu de querosene
Um bêbedo julgando-se césar
Faz um discurso solene

Sombras chinesas nas ruas
Esmeram-se aranhas nas teias
Impacientam-se gazuas
Corre o cavalo nas veias

Há uma luz branca na barraca
Lá dentro uma sagrada família
À porta um velho pneu com terra
Onde cresce uma buganvília

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,

Oiçam um choro de criança
Será branca negra ou mulata
Toquem as trompas da esperança
E assentem bem qual a data

A lua leva a boa nova
Aos arrabaldes mais distantes
Avisa os pastores sem tecto
Tristes reis magos errantes
E vem um sol de chapa fina
Subindo a anunciar o dia
Dois anjinhos de cartolina
Vão cantando aleluia

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,

Nasceu enfim o menino
Foi posto aqui à falsa fé
A mãe deixou-o sozinho
E o pai não se sabe quem é

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells


Rui Veloso


Ouvir no A Música Portuguesa 

 

Portalegre, Dezembro de 2012

Jorge Soares

Poema de natal

soldadinho

 

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


Vinicius de Moraes

Portalegre, Dezembro de 2011
Jorge Soares

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