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Momentos e Olhares

A vida é feita de momentos, alguns são apagados, levados pelas ondas da vida, outros ficam, perduram na nossa memória e fazem de nós o que somos, olhares, vivências, recordações e saudade! -Jorge Soares

Momentos e Olhares

A vida é feita de momentos, alguns são apagados, levados pelas ondas da vida, outros ficam, perduram na nossa memória e fazem de nós o que somos, olhares, vivências, recordações e saudade! -Jorge Soares

Cheguei demasiado tarde e já todos se tinham ido embora

Uma janela perdida no tempo

 

“Que dia? Que olhar?”

 

Cheguei demasiado tarde

e já todos se tinham ido embora

restavam paeis velhos, vidas mortas,

identidade, sujidade, eternidade.

 

Comeram o meu corpo e

beberam o meu sangue; e, pelo caminho, a minha biblioteca;

e escreveram a minha Obra Completa;

sobro, desapossado, eu.

 

Resta-me ver televisão,

votar, passear o cão

(a cidadania!). Prosa também podia,

e lentidão, mas algo (talvez o coração) desacertaria.

 

Pôr-me aos tiros na cara como Chamfort?

Dar em aforista ou ainda pior?

Mudar de cidade? Desabitar-me?

Posmodernizar-me? Experienciar-me?

 

Com que palavras e sem que palavras?

Os substantivos rareiam, os verbos vagueiam

por salões vazios e incendiados

entregando-se a guionistas e aparentados.

 

Cheira excessivamente a morte por aqui

como no fim de uma batalha cansada

de feridas antigas, e eu sobrevivi

do lado errado e pela razão errada.

 

“Que dia? Que olhar?”

(Beckett, “Dias felizes”)

Que feridas? Que estanda-

te? Que alheias cicatrizes?

 

Estou diante de uma porta (de uma forma)

com o – como dizer? – coração

(um sítio sem lugar, uma situação)

cheio de palavras últimas e discórdia.

 


Manuel António Pina

 

Uma fotografia de quando para mim a técnica era olhar para o que queria fotografar e carregar no botão da máquina.. 

 

Porto, Junho de 2008

Jorge Soares

 

28 de Jun de 2008, Câmara: OLYMPUS IMAGING CORP.FE-140,X-725, ISO: 80, Exp.: 1/100 seg.,Abert.: 5.3,Ext.: 15.3mm

A arte de ser feliz

Janela

 

 

Houve um tempo em que minha janela 

se abria sobre uma cidade que parecia 

ser feita de giz. Perto da janela havia um 

pequeno jardim quase seco. 

Era uma época de estiagem, de terra 

esfarelada, e o jardim parecia morto. 

Mas todas as manhãs vinha um pobre 

com um balde e, em silêncio, ia atirando 

com a mão umas gotas de água sobre 

as plantas. Não era uma rega: era uma 

espécie de aspersão ritual, para que o 

jardim não morresse. E eu olhava para 

as plantas, para o homem, para as gotas 

de água que caíam de seus dedos 

magros e meu coração ficava 

completamente feliz. 

Às vezes abro a janela e encontro o 

jasmineiro em flor. Outras vezes 

encontro nuvens espessas. Avisto 

crinças que vão para a escola. Pardais 

que pulam pelo muro. Gatos que abrem 

e fecham os olhos, sonhando com 

pardais. Borboletas brancas, duas a 

duas, como refelectidas no espelho do ar. 

Marimbondos que sempre me parecem 

personagens de Lope de Vega. Às 

vezes um galo canta. Às vezes um 

avião passa. Tudo está certo, no seu 

lugar, cumprindo o seu destino. E eu me 

sinto completamente feliz. 

Mas, quando falo dessas pequenas 

felicidades certas, que estão diante de 

cada janela, uns dizem que essas coisas 

não existem, outros que só existem 

diante das minhas janelas, e outros, 

finalmente, que é preciso aprender a 

olhar, para poder vê-las assim. 

 

Cecília Meireles

 

Janela em Vila Nova de Milfontes

Junho de 2009

Jorge Soares

JANELA VIRADA P´RO MAR

Naquela Janela.. virada para o mar 

 

Cem anos que eu viva, não posso esquecer-me 
Daquele navio que eu vi naufragar 
Na boca da barra tentando perder-me 
Daquela janela virada p´ro mar 

Sei lá quantas vezes matei o desejo 
E fui pelo mar fora com a alma a sangrar 
Levando na ideia uns lábios que invejo
E aquela janela virada p´ro mar 

Marinheiro do mar alto olha as ondas, uma a uma 
Preparando-te um assalto entre montes de alva espuma 
Por mais que elas bailem numa louca orgia 
Não trazem desejos de me torturar 
Como aquela doida que eu deixei um dia 
Naquela janela virada p´ro mar…

Se mais ainda houvesse, mais portos correra 
Lembrando-me em noites de meigo luar 
Duns olhos gaiatos que trago à espera 
Naquela janela virada p´ro mar

Mas quis o destino que o meu mastodonte 
Já velho e cansado, viesse encalhar 
Na boca da barra, e mesmo de fronte 
Daquela janela virada p´ro mar…

 

(Frederico de Brito)

 

Ponta Delgada, Açores

Agosto de 2008

 

 

Aug 20, 2008, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 100,Exposição: 1/500 seg.,Abertura: 9.0, Extensão focal: 60mm

 

PS:Obrigado Rosa

 

Por trás daquela Janela

Por trás daquela janela, Fernando Pessoa

 

Por trás daquela janela
Cuja cortina não muda
Coloco a visão daquela
Que a alma em si mesma estuda
No desejo que a revela.

 

Não tenho falta de amor.
Quem me queira não me falta.
Mas teria outro sabor
Se isso fosse interior
Àquela janela alta.

 

Porquê? Se eu soubesse, tinha
Tudo o que desejo ter.
Amei outrora a Rainha,
E há sempre na alma minha
Um trono por preencher.

 

Sempre que posso sonhar,
Sempre que não vejo, ponho
O trono nesse lugar;
Além da cortina é o lar,
Além da janela o sonho.

 

Assim, passando, entreteço
O artifício do caminho
E um pouco de mim me esqueço
Pois mais nada à vida peço
Do que ser o seu vizinho.

 

Fernando Pessoa in Cancioneiro

 

Ponta Delgada, Açores, Agosto de 2008

 

 
Aug 20, 2008, Câmara: Sony DSLR - A350, ISO 100, Exposição: 1/80 Seg. Abertura 9.0, Extensão Focal  35 mm
 

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