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Momentos e Olhares

A vida é feita de momentos, alguns são apagados, levados pelas ondas da vida, outros ficam, perduram na nossa memória e fazem de nós o que somos, olhares, vivências, recordações e saudade! -Jorge Soares

Momentos e Olhares

A vida é feita de momentos, alguns são apagados, levados pelas ondas da vida, outros ficam, perduram na nossa memória e fazem de nós o que somos, olhares, vivências, recordações e saudade! -Jorge Soares

Perspectiva

Jardins de Serralves, Porto

 

Perspectiva

 

Olho a sebe dos versos que plantei

Ao longo do caminho dos meus dias:

Tristezas e alegrias,

Enlaçadas

Como irmãs vegetais.

Silvas e alecrim...

O pior e o melhor que havia em mim

Num abraço de arbustos fraternais.

Nada quero mudar dessa harmonia

De argruras e doçuras misturadas.

Pasmo é de ver a estranha maravilha.

Poeta que partilha

O coração magoado

Por presentes e opostas emoções

Comtemplo , deslumbrado,

O renque de vivências do passado,

Longo poema sem contradições.

 

Miguel Torga

 

Jardins de Serralves

Porto, Março de 2011

Jorge Soares

Longo foi o caminho

Fim do dia em Roma

 

Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei.
E caísse de pé, num desafio
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

Miguel Torga

 

 

Fim de tarde no Foro Romano, Roma

Dezembro de 2010

Jorge Soares

Não tenho deuses. Vivo

A folha em Roma

 

Princípio

 

Não tenho deuses. Vivo 
Desamparado. 
Sonhei deuses outrora, 
Mas acordei. 
Agora 
Os acúleos são versos, 
E tacteiam apenas 
A ilusão de um suporte. 
Mas a inércia da morte, 
O descanso da vide na ramada 
A contar primaveras uma a uma, 
Também me não diz nada. 
A paz possível é não ter nenhuma. 

Miguel Torga, in 'Penas do Purgatório

 

Ao longo do rio Tibre há plátanos, árvores enormes que no verão devem encher as margens de sombra refrescante. Nesta altura estavam a preparar as roupagens de inverno e por todos os lados havia folhas caídas, esta aterrou bem à minha frente em cima de um dos muros da ponte Fabricio.

 

Roma, Dezembro de 2010

Jorge Soares

Orgasmo

Dia de Inverno no planalto da Serra da Estrela

 

ORGASMO


Deixa que eu te descubra, anónima paisagem,
Corpo de virgem que não amo ainda!
Fauno das fragas e dos horizontes,
Sonho contigo sem te conhecer…
Sonho contigo nua, a pertencer
Ao silêncio devasso e à solidão!
Num pesadelo, vejo amanhecer
O sol e o vento no teu coração!


E é um ciúme de Otelo que me rói!
Só eu não posso acarinhar a sombra
Do teu rosto velado!
Só eu vivo afastado
Dos teus encantos!
E são tantos
E tais!
Que eu não posso, paisagem,
Esperar mais!

 

Miguel Torga

 

Para quem se queixou do titulo do post do outro dia... ora, aqui está um titulo quente para uma paisagem bela mas muito fria.

 

Neve no planalto central da Serra da Estrela

 

Dezembro de 2010

Jorge Soares

 

26 de Dez de 2010, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 100, Exp.: 1/160 seg., Abert.: 13.0, Ext.: 55mm,Flash: Não

Bela dona

 

 

À Beleza

 

Não tens corpo, nem pátria, nem família, 
Não te curvas ao jugo dos tiranos. 
Não tens preço na terra dos humanos, 
Nem o tempo te rói. 
És a essência dos anos, 
O que vem e o que foi. 

És a carne dos deuses, 
O sorriso das pedras, 
E a candura do instinto. 
És aquele alimento 
De quem, farto de pão, anda faminto. 

És a graça da vida em toda a parte, 
Ou em arte, 
Ou em simples verdade. 
És o cravo vermelho, 
Ou a moça no espelho, 
Que depois de te ver se persuade. 

És um verso perfeito 
Que traz consigo a força do que diz. 
És o jeito 
Que tem, antes de mestre, o aprendiz. 

És a beleza, enfim. És o teu nome. 
Um milagre, uma luz, uma harmonia, 
Uma linha sem traço... 
Mas sem corpo, sem pátria e sem família, 
Tudo repousa em paz no teu regaço. 

Miguel Torga, in 'Odes'

 

 

Setúbal, Outubro de 2010

Jorge Soares

 

16 de Out de 2010, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 100, Exp: 1/250, Abertura: 6.3, Extensão focal: 135 mm, Flash: Não

A vida pintada em tons dourados

Outono

 

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.


Miguel Torga

 

Outono no Jardim de Vanicelos

Setúbal, Outubro de 2010

Jorge Soares

Livre

Cavalo alado

 

Livre não sou, que nem a própria vida 
Mo consente. 
Mas a minha aguerrida 
Teimosia 
É quebrar dia a dia 
Um grilhão da corrente. 

Livre não sou, mas quero a liberdade. 
Trago-a dentro de mim como um destino. 
E vão lá desdizer o sonho do menino 
Que se afogou e flutua 
Entre nenúfares de serenidade 
Depois de ter a lua! 

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

 

 

O cavalo ia em grande velocidade, e a luz do fim de tarde já era pouca... talvez o modo na máquina também não fosse o mais adequado... está tremida, eu sei... mas decidi que gosto na mesma...
Representação de o Casamento do Viriato pelos Fatias de Cá, Almourol, Vila Nova da Barquinha
Setembro de 2010
Jorge Soares

É o vento que me leva

Gaivotas em voo

 

 

Viagem

 

É o vento que me leva. 
O vento lusitano. 
É este sopro humano 
Universal 
Que enfuna a inquietação de Portugal. 
É esta fúria de loucura mansa 
Que tudo alcança 
Sem alcançar. 
Que vai de céu em céu, 
De mar em mar, 
Até nunca chegar. 
E esta tentação de me encontrar 
Mais rico de amargura 
Nas pausas da ventura 
De me procurar... 

Miguel Torga, in 'Diário XII'

 

Gaivotas na praia em Salema, Lagos,  Algarve

Junho de 2010

Jorge Soares

Tempo

 

 

Relógio de sol

 

Tempo — definição da angústia. 
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te 
Ao coração pulsátil dum poema! 
Era o devir eterno em harmonia. 
Mas foges das vogais, como a frescura 
Da tinta com que escrevo. 
Fica apenas a tua negra sombra: 
— O passado, 
Amargura maior, fotografada. 

Tempo... 
E não haver nada, 
Ninguém, 
Uma alma penada 
Que estrangule a ampulheta duma vez! 

Que realize o crime e a perfeição 
De cortar aquele fio movediço 
De areia 
Que nenhum tecelão 
É capaz de tecer na sua teia! 

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

 

 

Relógio de Sol em Setúbal

Abril de 2010

Jorge Soares

Tempo

 

Tempo

 

Tempo — definição da angústia. 
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te 
Ao coração pulsátil dum poema! 
Era o devir eterno em harmonia. 
Mas foges das vogais, como a frescura 
Da tinta com que escrevo. 
Fica apenas a tua negra sombra: 
— O passado, 
Amargura maior, fotografada. 

Tempo... 
E não haver nada, 
Ninguém, 
Uma alma penada 
Que estrangule a ampulheta duma vez! 

Que realize o crime e a perfeição 
De cortar aquele fio movediço 
De areia 
Que nenhum tecelão 
É capaz de tecer na sua teia! 

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

 

Bragança, Torre da Sé

Agosto de 2009

Jorge Soares

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