Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Momentos e Olhares

A vida é feita de momentos, alguns são apagados, levados pelas ondas da vida, outros ficam, perduram na nossa memória e fazem de nós o que somos, olhares, vivências, recordações e saudade! -Jorge Soares

Momentos e Olhares

A vida é feita de momentos, alguns são apagados, levados pelas ondas da vida, outros ficam, perduram na nossa memória e fazem de nós o que somos, olhares, vivências, recordações e saudade! -Jorge Soares

Como pequena flor ....

Uma flor amarela

 

Como pequena flor que recebeu uma chuva enorme
E se esforça por sustentar o oscilante cristal das gotas
Na seda frágil, e preservar o perfume que aí dorme

 

E vê passarem as leves borboletas livremente
E ouve cantarem os pássaros acordados sem angústia
E o sol claro do dia às claras estátuas beijando sente

 

E espera que se desprenda o excessivo, úmido orvalho
Pousado, trêmulo, e sabe que talvez o vento
A libertasse, porém a desprenderia do galho

 

E nesse temor e esperança aguarda o mistério transida
- Assim repleto de acasos e todo coberto de lágrimas
Há um coração nas lânguidas tardes que envolvem a vida

 

Cecilia Meireles

 

Setúbal, Fevereiro de 2011

Jorge So

Tu és a folha de Outono

Outono, folha

 

Canção de Outono

 

Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão, 
se havia gente dormindo 
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles 
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono 
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

 

Cecília Meireles

 

Campo do Gerês, Gerês, Braga

Novembro de 2010

Jorge Soares

A pequena borboleta

Borboleta no malmequer

 

A Amiga Deixada

 

Antiga 
cantiga 
da amiga 
deixada. 

Musgo da piscina, 
de uma água tão fina, 
sobre a qual se inclina 
a lua exilada. 

Antiga 
cantiga 
da amiga 
chamada. 

Chegara tão perto! 
Mas tinha, decerto, 
seu rosto encoberto... 
Cantava — mais nada. 

Antiga 
cantiga 
da amiga 
chegada. 

Pérola caída 
na praia da vida: 
primeiro, perdida 
e depois — quebrada. 

Antiga 
cantiga 
da amiga 
calada. 

Partiu como vinha, 
leve, alta, sozinha, 
— giro de andorinha 
na mão da alvorada. 

Antiga 
cantiga 
da amiga 
deixada. 

Cecília Meireles, in 'Vaga Música'

 

Borboleta na flor

Setúbal, Junho de 2010

Jorge Soares


....Não fales palavras vãs.

 

Não digas ....

 

Não digas onde acaba o dia.

Onde começa a noite.

Não fales palavras vãs.

As palavras do mundo.

Não digas onde começa a Terra,

Onde termina o céu.

Não digas até onde és tu.

Não digas desde onde é Deus.

Não fales palavras vãs.

Desfaz-te da vaidade triste de falar.

Pensa, completamente silencioso.

Até a glória de ficar silencioso,

Sem pensar.

 

Cecilia Meireles in Cânticos

 

Pôr do sol em Cabo Verde

Fevereiro de 2010

Jorge Soares

 

A arte de ser feliz

Janela

 

 

Houve um tempo em que minha janela 

se abria sobre uma cidade que parecia 

ser feita de giz. Perto da janela havia um 

pequeno jardim quase seco. 

Era uma época de estiagem, de terra 

esfarelada, e o jardim parecia morto. 

Mas todas as manhãs vinha um pobre 

com um balde e, em silêncio, ia atirando 

com a mão umas gotas de água sobre 

as plantas. Não era uma rega: era uma 

espécie de aspersão ritual, para que o 

jardim não morresse. E eu olhava para 

as plantas, para o homem, para as gotas 

de água que caíam de seus dedos 

magros e meu coração ficava 

completamente feliz. 

Às vezes abro a janela e encontro o 

jasmineiro em flor. Outras vezes 

encontro nuvens espessas. Avisto 

crinças que vão para a escola. Pardais 

que pulam pelo muro. Gatos que abrem 

e fecham os olhos, sonhando com 

pardais. Borboletas brancas, duas a 

duas, como refelectidas no espelho do ar. 

Marimbondos que sempre me parecem 

personagens de Lope de Vega. Às 

vezes um galo canta. Às vezes um 

avião passa. Tudo está certo, no seu 

lugar, cumprindo o seu destino. E eu me 

sinto completamente feliz. 

Mas, quando falo dessas pequenas 

felicidades certas, que estão diante de 

cada janela, uns dizem que essas coisas 

não existem, outros que só existem 

diante das minhas janelas, e outros, 

finalmente, que é preciso aprender a 

olhar, para poder vê-las assim. 

 

Cecília Meireles

 

Janela em Vila Nova de Milfontes

Junho de 2009

Jorge Soares

Rosa do Outono

 Botão de rosa

 

Renova-te.

Renasce em ti mesmo.

Multiplica os teus olhos, para verem mais.

Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.

Destrói os olhos que tiverem visto.

Cria outros, para as visões novas.

Destrói os braços que tiverem semeado, 

Para se esquecerem de colher.

Sê sempre o mesmo.

Sempre outro. Mas sempre alto.

Sempre longe.

E dentro de tudo.

 
Cecília Meireles
 
Ainda as rosas da minha mãe
Alviães, Palmaz, Oliveira de Azemeis, Aveiro
Outubro de 2009
 
Oct 11, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350, ISO: 100, Exposição: 1/640 seg., Abertura: 5.6, Extensão focal: 200mm

Timidez

Timidez

 

 Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve,

para que venhas comigo

e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

 

Uma palavra caída

das montanhas dos instantes

desmancha todos os mares

e une as terras distantes...

- palavras que não direi.

 

Para que tu me adivinhes,

entre os ventos taciturnos,

apago meus pensamentos,

ponhos vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

 

E, enquanto não me descobres,

os mundos vão nevegando

nos ares certos do tempo

até não se sabe quando...

- e um dia me acabarei.

 

Cecília Meireles

 

Algures no Nordeste, São Miguel, Açores,

Agosto de 2008

 

Jorge Soares

 

Aug 21, 2008,Câmara: SONY ,Modelo: DSLR-A350,ISO: 200,Exposição: 1/320 seg.,Abertura: 5.6 Extensão focal: 200mm

A grande Alegria

 A grande alegria


Poema da grande alegria

Olhavas-me tanto
E estavas tão perto de mim
Que, no meu êxtase,
Nem sabia qual fosse
Cada um de nós...
Era num lugar tão longe
Que nem parecia neste mundo...
Num lugar sem horizontes,
Onde, sobre águas imóveis,
Havia lótus encantados...
Vinham de mais longe...
De ainda mais longe,
Músicas sereníssimas,
Imateriais como silêncios...
Músicas para se ouvirem com a alma, apenas...
E tudo, em torno,
Eram purificações...
Não sei para onde me levavas:
Mas aqueles caminhos pareciam
Os caminhos eternos
Que vão até o último sol...
E eu me sentia tão leve
Como o pensamento de quem dorme...
Eu me sentia com aquela outra Vida
Que vem depois da vida...
Eleito, ó Eleito,
Eu queria ficar sonhando
Para sempre,
Tão perto de Ti
Que, no meu êxtase,
Nem se pudesse saber
Qual fosse cada um de nós...

 

Cecília Meireles
(1901-1964)

 

Óbidos, Vila do Natal

Janeiro de 2009

 

Jan 3, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350,ISO: 125,Exposição: 1/50 seg.,Abertura: 5.0,Extensão focal: 28mm,Flash: Não

 

Pássaro

O pássaro

 

Aquilo que ontem cantava

já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

 

Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.

 

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.

 

Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.

 

Cecilia Meireles

Fotografia tirada em Setúbal, de longe achei que era um melro, só quando vi a imagem no computador reparei nos detalhes...  não sei se será primo dos melros..mas é sem duvida uma bela ave.

 

Apr 26, 2009, Câmara: SONY DSLR-A350,ISO: 125,Exposição: 1/320 seg.,Abertura: 5.6,Extensão focal: 200mm,Flash: Não

 

Direitos de Autor
Nenhuma parte deste site pode ser reproduzida sem a prévia permissão do autor. Todas as fotografias estão protegidas pelo Decreto-Lei n.º 63/85, de 14 de Março.
Uma vez que a maioria das fotografias foram feitas em locais públicos mas sem autorização dos intervenientes, se por qualquer motivo não desejarem que sejam divulgadas neste blog entrem em contacto comigo e serão retiradas de imediato.

 

Mais sobre mim

imagem de perfil

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D